sexta-feira, 13 de julho de 2012

Lábios Rachados



Lábios rachados. Não pelo sol, mas pelo sal que tempera a várzea dos olhos meus. Ressequidos, escarificados, banhados pelo agreste delgado de uma boca que nunca recebeu um beijo de verdadeiro amor. A pele crespa, áspera, amontoava-se por sobre dentes amarelados cujo sorriso esperava eternamente o bater de uma fotografia, uma fotografia revelada no avesso dos olhos daqueles que nunca souberam amar. Não houve flash, não houve fumaça, não houve amor. O único relâmpago que rasgou a escuridão nunca chegou a ser visto por olhos humanos, pois aquela luz se chamava razão, e ela não os pertencia.
Senti na testa o dedo da moral me julgar sem o menor consolo, porém na nuca era a mão rude e calejada da devassidão que me enforcava sem o menor pudor, como se minhas ancas curvilíneas fossem pedaços de carne entregues ao destino. Se eram homens ou abutres que haveriam de comê-las, nunca cheguei a saber, mas ao destino não sobrou nenhuma orgástica fatia do meu corpo destemperado e cru. Apenas os lábios, murchos como uma flor colhida no inverno, podres como uma fruta regada no verão.
Outonos e mais outonos sarapintaram meu chão com suas folhas alaranjadas, deixando que somente os ramos secos da minha imaginação continuassem apontando para o céu sem vento, em sua cor de tristeza. Cada galho representava um destino, assim como cada forquilha significava o início de um novo caminho. A grande desgraça era saber que a primavera jamais chegaria, pois independente do caminho escolhido, meus botões cairiam antes mesmo que chegassem a florescer. E me restaria, como de costume, apenas os galhos secos, as folhas mortas e a casca alquebrada, trincada como a boca que vos fala.
Quão afáveis foram os beijos com sabor de sangue, lavrando meus lábios com línguas macias e presas mordentes, sublimando da minha saliva toda a inocência que nunca preencheu meu espírito, silvando ao pé do ouvido promessas de amor que findam quando o dia amanhece. Doravante, quando o sol finalmente desponta, nem prometidos e nem prometedores fazem-se presentes, fogem todos, no intuito de alimentar suas almas sujas e anoitecidas, porém não tão escuras quanto a minha.
Até que num dia como outro qualquer, triste como outro qualquer, os botões das flores deixaram de cair, tal como deixaram de nascer. As folhas deixaram de forrar o chão, pois sequer chegavam a brotar. E os lábios não mais voltaram a sangrar, pois jamais voltaram a sorrir. A fotografia foi revelada por fim registrando o esgar indolor de um rosto cadavérico, no entanto de uma imaculada beleza, de uma perfeição intocada. Satânica, diriam alguns. Os olhos sepultavam-se profundamente, toldados por cílios bonitos e sobrancelhas minuciosamente desenhadas, doentios, mas ainda assim radiantes.
E a boca, ah, aquela boca, desenhava-se no papel num ângulo tão indescritível quanto as palavras que ela nunca fora capaz de dizer, pois mesmo representada em tinta, luz e sombra, emitia um desespero crocitante àqueles que tiveram a audácia de amar sem ser amado. Exprimia, selada e silenciosa, não dor, não sofrimento, tampouco alegria. Não sorria nem se enrugava. Sem sangue, sem cor, sem lábios trincados. Sem primaveras, verões ou outonos alaranjados. Não passava de uma cicatriz, um lacre de medo onde antes haviam canções, beijos e sorrisos. E dentro dela, amaldiçoado pelo silêncio e pela distância, grafado a ferro e fogo na rósea maciez da língua, havia um nome. Um nome que jamais voltaria a inspirar poesias. Um nome que era seu, outrora meu, e de mais ninguém. 

domingo, 10 de junho de 2012

Minha Lua



A lua que te ilumina
Não é a mesma alva carnificina
Que resplandece meu anoitecer

Pois tenho de confessar
Que a beleza do meu luar
É apenas o sol disfarçado de escuridão

Sempre, então, que o sol se deita
Evoco os deuses de minha seita
Que cultua apenas meu próprio umbigo

Às vezes, porém, não consigo
Renegar o ardor do inimigo
Que intumesce meu coração

Os outros são o meu inferno
Quando a força de um amor tão terno
Arrefece as vísceras dentro de mim

E o sangue percorre finalmente
A pobreza não tão inocente
De minhas rimas foscas e luarentas

Tais palavras de queixume
Céticas, alcançam o cume
De um inalcançável Olimpo sem fé

Não alcançam, no entanto
Nem de leve, nem quebranto
A profundeza dos seus olhos cansados

E o meu amor só se solida
Quando a lua tão esquecida
Conquista um beijo ardente do sol

Tal beijo, no entanto, jamais se consuma
Nem mesmo quando a mágica da bruma
Amarra os corações dos incrédulos

E de quebra me amaldiçoa a vida
E recende o odor da ferida
Ferida aberta para o luar entrar
  
Acontece que a lua é trapaceira
Pois mesmo quando sem eira nem beira
Sabe como pechinchar um romance
  
Mas como disse, eu não tenho chance
Pois minha esperança é apenas um relance
E minha lua é só o sol disfarçado de escuridão.

domingo, 3 de junho de 2012

Beijo na poeira



Era dia. O sol me dava um tapa de ardor na nuca, como se me alertasse: “A vida passa”. Por hora entorpecido pela umidade e pelo calor, me flagrei indagando enquanto caminhava: “Se a vida passa, o que faz a morte? Estagna-se?” A resposta chegou num carro branco, cuja lataria incandescia em tom de ameaça, empoeirada pela fuligem inodora do capitalismo. Mais quente que o sol, ou a lataria ou o mormaço, somente o olhar do motorista que, suado, me observava lá de dentro.
Ressalvo: este é uma fábula urbana, portanto, em nome da urbanidade, constato: Flores só detém poesia quando florescem em abundância. Uma flor nascida num vaso é como um pássaro trancafiado numa gaiola. Eis o que sou, se me permitem o lirismo, uma flor que desabrocha solitária. Podada e inócua, regada pela monotonia autoritária do dia a dia, alimentada pelo lusco-fusco pálido da luz de uma janela, uma beleza contemplativa, não mais que ornamental. Queria eu ser uma rosa nascida no asfalto. Pisoteada e esquecida, eu sei, mas ao menos tocada. Adorada em sua insignificância.
Mas tal como o asfalto persiste desflorado, o carro branco persistiu parado ao meu lado. O motorista, porém, quebrara por fim o silêncio preenchido somente pelo ronco do motor e me convidara, ainda com os olhos incandescidos de malícia, a entrar e sentar. João era seu nome, talvez Luís, talvez Marcos, e talvez nem o tenha me dito e eu tratei de inventar. É uma mania, sabem, tapar com sonhos os buracos da realidade. Os sonhos, no entanto, não taparam buracos, muito pelo contrário, tornara-os mais profundos.
O beijo do motorista era tão indizível quanto o seu nome, e o seu corpo era ainda mais ardente que seu olhar. Já os buracos do asfalto não eram tão profundos quantos os meus, assim como nenhuma sugestividade é tão gritante quando a minha. Desarmado, me prostrei perante a adrenalina do proibido e deixei que perigo se apoderasse de mim feito orgasmo, feito medo, e feito luto. Mortos estavam todos os que um dia caminharam sobre o mesmo sol escaldante que o meu, os que tropeçaram nos mesmos buracos que eu, e os que floresceram na mesma terra que a minha. Pois a morte jamais se estagna, descobri por mérito da loucura, ela apenas dança no mesmo lugar, num lugar chamado destino, num destino chamado João. Ou Luís. Ou Marcos. Ou Sonho.
No banco do carro deixei meu telefone, meu endereço e minha dignidade, e subi aos trancos e barrancos por uma escada tão alta quanto meu ego e tão suja quanto meu coração, como se cada estalar do delicioso beijo houvesse me embriagado como um copo de cachaça. E sem ao menos olhar pra trás para anotar a placa do carro ou cor dos olhos daquele homem tão sisudo, prossegui escada a dentro rumo às luzes alucinógenas de um mundo que me pertencia, mas de uma alegria forjada que não era só minha. Outrora sóbrio, então, extraí da ebriedade estas palavras bonitas e escrevi uma fábula urbana onde tanto a introdução, enredo ou desfecho, não passavam de um beijo num carro branco e empoeirado. 

sábado, 26 de maio de 2012

Inescrupulosa Distância



E quando a distância é medida em anos luz, porém a sombra da solidão é contada em horas infinitas? Me sinto só, feito uma estrela encrustada numa galáxia longínqua, ladeada por suas milionésimas companheiras cintilantes, companheiras cuja distância era maior que o alcance de seus raios de resplandecência e pureza. Não é à toa que o universo é composto por gotículas de luz pintalgadas na escuridão, e não por pontos de negro goticulados na brancura. As trevas não passam de um pretexto de Deus pra que um dia eu pudesse brilhar.
Feito estrela, brilhei. Mas a sideral distância do teu brilho ao meu ofuscou toda e qualquer possibilidade de abrasão, abandonando-me na frialdade do desejo, desalentando-te na solidez do impalpável. Sem poder tocar-te, alentei-me no conspurco da carência, varzendo meus fluidos em tua homenagem. Não podendo ter-te, desconsegui-me na saudade daquilo que nunca tive, alimentando a lembrança de coisas que não vivi e que talvez nunca chegue a viver.
Sob a sombra da realidade, no entanto, obrigo-me a admitir que deuses, estrelas e futuros são apenas suposições, bravatas arremessadas ao vento. E eu sei: o vento que te refresca nas tardes de calor é mesmo que me acaricia nas noites de solidão, brisa mensageira que viaja por milhas no intuito de me fazer relembrar do seu cheiro perdido na distância. Distância, inescrupulosa distância, o que esperas de mim se tua única oferta é o vazio? Enfureço-me com as ironias desse destino escrito torto por linhas retas, retas demais para que eu pudesse percorrê-las, torto demais para que eu pudesse endireita-lo.
Mas o que existe entre nós, compreendi por fim, não são caminhos retilíneos, tampouco destinos tortuosos. O que nos resta é caminhar por uma estrada sem margem, sem de onde sair nem aonde chegar. Entreguemos, de bom grado e com paciência, a nossa história nas mãos rudes do acaso, para que um dia nossos passos desbaratados tracem uma trajetória em que nossos caminhos talvez se cruzem. E quando esse dia chegar, aí sim vamos descobrir se o que viveremos juntos será o talvez, o sempre ou o nunca.
Doravante, enquanto o acaso adormece no túmulo dos substantivos inconcretos, vou substantivando os versos escritos na mesma grafia do teu nome, um nome tão comum quanto um amor que nunca se sentiu. Quero que sejas para mim como um beijo distante do qual ainda sinto saudade, mas que carregue nessa saudade a promessa de um reencontro. Afora as promessas, vou jurando a mim mesmo que a vida pode continuar, que os sorrisos ainda podem ser sorridos, que os amores ainda podem ser vividos. E no torpor da esperança, vou segredando meus sentimentos às paredes, minhas mais sinceras e silenciosas companheiras. Pois assim como a tua, minha casa é muito grande para mim. 

domingo, 13 de maio de 2012

Matricídio



Materializara-me, por fim, num mundo onde os cérebros não faziam jus àquilo que os olhos enxergavam. Os olhos, por sua vez, pouco ou nenhum senso de justiça exerciam quando, por sorte ou por um descuido, chegavam a testemunhar o mundo com um mínimo de lucidez. E os lúcidos, pobres coitados oriundos das terras da razão, foram de todo condenados a caminhar sem rumo por sobre a face da terra, às cegas e às gargalhadas, buscando irmãos nos quais se apoiar, com os quais compartir a maldita piada do destino, procurando outros herdeiros da herança vazia da grande mãe.
Primogênito, nasci. Trazendo cravada na pele e nos ossos a lembrança de um derradeiro sorriso de virgindade e me divertindo com o sadismo da conspurcação. Desprovido de valores ou princípios, andei por entre os povos disseminando a inconsistência amarga da verdade e a consistência adocicada do sangue, da porra e da desilusão. Sem limites, limitei-me a viver. Sem pena, penalizei-me com deboche. Sem orgulho, me orgulhei do nada em que o tudo se consiste. Pois toda noite, antes de dormir, escuto uma triste história da voz ininteligível da grande mãe.
Engrandeci-me, então, no dia em que ofertei no altar toda a insignificância da minha pequeneza. E lá de cima, inexorável matriarca, a dureza de seus olhos profundos não me permitia fraquejar, ora, pois a fraqueza subsiste no homem como sua mais forte essência. Essencialmente, pontuo: muitas vezes me entristeci por descobrir que dentre os gigantes eu era o maior, tal como dentre os pigmeus era eu o mais mirrado. Entristecia-me por saber que naquele pequenino mundo em que por um infortúnio nasci, os olhos continuavam a ver mais do que se havia para ver e menos do que deveria ser visto. Assassinando assim, dia após dia, a vida desvivida daquela que todos os dias nos amamenta sem necessitar de tetas e nos embala mesmo quando não estamos dormindo. Renegando assim, eternidade após eternidade, as lições daquela que nunca se preocupou em ensinar. Sacrificando assim, com a frialdade característica dos seres humanos, o estéril ventre que nos gesta e nos cria sem pedir algo em troca, porém também sem nada a nos oferecer. Mas tu ainda vives em mim, grande mãe. Eternamente, até que o eterno termine, minha querida. Dá-me tua benção, Existência. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Ciranda



Todas as vezes que o sol se põe, eu me ponho junto. Junto das manhãs que ainda estão por nascer e junto dos bom dia que ainda hão de ser sussurrados, fracos e encharcados de desânimo. Com os boa noite lisonjeiros já não me preocupo. Sei que todas as noites são perfeitas, pois a perfeição é um círculo, ora, tal belo círculo banhado de negro.
Todas as vezes que o sol se levanta, eu me levanto junto.  Junto das pessoas que estão por viver e junto das vidas que nunca foram vividas, engessadas e esculpidas na brutalidade do tédio. Com o mormaço carniceiro já não me preocupo. Sei que todos os raios do sol são perfeitos, fios translúcidos e retilíneos que flecham sem abrir ferida, sem uma só gota de sangue derramar.
Todas as vezes, porém, que o sol faz-se rente no topo do céu, queima sobre os meus ombros cansados o peso morto de alguém que nunca sentiu o cheiro da morte. Com o comprimento da vida já não me preocupo. Sei que todo o meu viver sempre foi e sempre será perfeito, pois a perfeição é um círculo, e a vida uma vez me contou que adora brincar de roda. Sozinha. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Verdade



Não espere a verdade, espere palavras. Acredite no que lhe convier, posto que a verdade é aquilo que acreditas. Não tente achar a mentira, ora, pois inexistente é a sua natureza. Deveria eu dizer que a mentira é apenas mais uma das possíveis formas de se dizer a verdade, mas não direi, estaria mentindo, pois é de conhecimento que a verdade não é dita, ela é construída, assim como todas as coisas do mundo real. A mentira é, por sua vez, uma dádiva pra quem sabe consumi-la com desdém, tal como a verdade é um estorvo pra quem se acostumou em se ater somente nela. Filtre, deturpe, ignore, e jamais use o tom imperativo ao despejar suas autênticas inverdades no ouvido das outras pessoas. Desse pecado já me absolvo, oh, divina conveniência, pois tudo posso naquela que me fortalece: a hipocrisia – a virgem mais pura, a poesia mais dura, a elementar das elementais falácias do homem. Hipócritas são aqueles que a negam com fervor, blasfemadores contra a própria essência, estupradores da própria inocência e carcereiros da própria sepultura. Salve a incoerência e a redundância, pois escoradas nelas viveram os homens mais importantes do universo: aqueles que nunca chegaram a nascer. Felizes daqueles que tiveram de comer do pão que o diabo amassou para perceber que ele jamais existiu, e daqueles que precisaram subir aos céus para aprender que nossa última e única morada é a terra, pois santos são os homens que se permitiram ungir numa benção cujo poder não faz questão de fiéis ou escolhidos: A existência – a única deusa que não necessita da fé dos tolos para governar sobre o tudo, sobre o todo e sobre mim.


terça-feira, 24 de abril de 2012

Tardia Oblação



Eis que uiva, dilacerado, o meu amor
Laboriosa ladainha em tom de pajelança
A mourejar o coração que jamais descansa
Que vassala em nome de um bel senhor

Pobre de mim, apaixonado
Pois a paixão fez-se rica, soberana
Mesmo que, porém, tão linda, fez-se insana
No dia em que me fiz enamorado

Pobre da rima, enamorada
Pois cada verso fez-se uno, solitário
Como em suma alegria, porém ao contrário
Contrariando cada estrofe apaixonada

Eis que silencio, condenado, o meu despudor
Jocosa arrelia, feito os gemidos de uma criança
Pois hoje só se ouve os ruídos da matança
Que escarnece e assassina o último dono do meu amor.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vala


Vislumbro na noite descortinada
As sombras dos meus sorrisos desconseguidos
As cores indolores das lágrimas desbaratadas
Descolorindo o verde de teus olhos desapaixonados
Cobrindo valas que nunca foram descobertas
Descobrindo amores onde nunca houve coração
Desbaratando versos onde nunca houve música
E dizendo “eu te amo” onde nunca houve poesia

terça-feira, 3 de abril de 2012

Pálpebras que Dormem


Foi tão difícil acreditar que era verdade. E, afinal, não era. Cada um dos sorrisos que esbocei agora se perpetua nas recrudescências da memória humana, somente como uma lembrança baça, triste e insistente. É difícil admitir o quão fraco é o coração, e o quão facilmente ele se esconde na máscara da força. O que poucos sabem, entrementes, é que máscaras não caem nunca, no entanto são quebradiças, e seus cacos são pontiagudos.
Engessado, trincado, porém inteiro, o caviloso coração que repulsa e impulsa meu sangue vermelho não deixou, nem mesmo por um instante, de exercer sua laboriosa função: manter-me vivo, quente e apaixonado. De cada uma de suas câmaras constritivas ouvia-se um silvo agudo, audível somente aos ouvidos mais apurados, que gritava como que anunciando, “Há amor aqui!”. Sua escuta, por sua vez, fez-se surda e impiedosa, mas era tua mudez que ostentava a crueldade maior.
Verso por verso, o seu silêncio sussurrou um poema de adeus ao meu ouvido, melancólico, impassível e declamativo. Mas eu não chorei, não me permiti, e guardei minhas lágrimas pra depois, para banhar heróis de uma odisseia que seja verdadeira. A verdade, por sua vez, inexiste. Cada uma dessas palavras de desconsolo está firmada em suposições burras e infantis, provenientes de um garoto burro e infantil, acometido por um sentimento burro e infantil.
Ah, o amor. Quando de ti já fez morada em meu peito? E quanto de ti ouviu tal ordem de despejo? E quanto de mim ainda é bem vindo em sua mesa? Perguntas, capciosas perguntas. Como se respostas fossem capazes de proporcionar tal alento, ao menos uma trégua. Tal poder, e você sabe, pertence somente à sua voz, em cada sílaba arrastada, em cada vez que sua boca macia acaricia o som do meu nome.  
Maldito seja o nome, marcado a fogo e ferida, no avesso dos meus olhos. Benditas sejam as mãos, encrustadas em calo e calor, transfixando minha pele branca. Pois indizíveis são os olhos, grumados em esperança e malícia, que vigilam com a displicência do cegos, mas que enxergam com as sutilezas do espírito. Pois mais triste que o fulgor do mortos, somente imaginar a traição dos seus olhos pestaneados. Globos de vidro, verdes de veneno. Cílios espigados, dourados de nobreza. Pestanas de cansaço, plácidas e desjuvenecidas. Lindos, fortes e distantes. Insípidas . Inóspitas. Incólumes. Pálpebras que dormem. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

O Pantomimeiro


Despertei. De uma noite cujo sonho não me lembro, lavando os olhos com águas felicitadas, sonolentas, remeladas e embebecidas de amor. Carregava nas pálpebras, fundas, maquiadas e escurecidas, a vaidade viçosa da idade dos príncipes e o peso modorrento da servidão dos parvos, dos bobos oriundos das cocheiras fétidas que ora crescem, ora se reinventam, a fim de lograr-se nas gargalhadas e lágrimas da realeza. Real era, pois, o sangue que lhe engarrafava o trânsito das veias, saudavelmente batizado com cachaça e uma boa dose das indecências hormonais, naturalmente, como é de praxe para um rapaz tão moço.
O parvo troçador era eu, admito. Já o rapazote, há tempos abandonado fora nas recrudescências da memória humana, deixando que somente a troça, a cachaça e a indecência ponderassem sobre meu espírito ancião, dicotomicamente encarnado neste corpo tão faceiro, tão juvenil. Ardiloso, na ponta dos pés, como fazem os bailarinos, puleguei então de coração em coração na busca por aquele que capacitado fosse de sustentar o meu balé banhado em volúpia, fazendo de cada pulsação cardíaca uma batida do melodioso trinado da suposta paixão, visualizando em cada um deles um ilutópico tablado de ripas vermelhas, um palco imaculado encerrado por cortinas escarlates cheias de promessas, sobre os quais eu estrelaria, lindo e resplandecente.   
Sob a sinuosidade dos meus pés, porém, os corações se desfaleceram revelando as valas escurecidas que por verdade eram, não um palco, mas calabouços sem fundo nos quais caí e me feri mortalmente. Gangrenadas, por fim, as feridas se tornaram troféus cujas sombras me faziam ora abrigo, ora cárcere, impedindo que as luzes do teatro me alumiassem outra vez. Cansado estava eu de ser um personagem cujo desfecho era uma farsa, um bufão. Temia outra vez submeter-me marionético nas mãos de um mimetista e, depois que a cortina se fechasse, ser embolado e largado na coxia mais escura. Minhas sapatilhas foram guardadas. Minhas maquiagens foram lavadas. Meus instrumentos desafinaram e enferrujaram. E eu me tornei duro, pálido, silencioso e sem sorrisos.
Eis que um dia, no entanto, o destino traiçoeiro me suspende pelas costas, como que num ventríloquo de realejo, materializando em minha frente a malícia dilaceradora de um par de olhos verde-vivos, coloridos pela esperança que a tempos me abandonara. E foram estes mesmos olhos que, mesmo sem tinta, música ou poesia, conseguiram enxergar no fundo do meu olhar desentristecido a máscara do palhaço, acintosamente desenhada, marcada a fogo e aplauso nas janelas da alma que preenche a ressonância oca do meu peito. Preenchidos foram todos os desejos e fissuras do meu corpo, pois as valas escuras não mais careciam de preenchimento, foram todas esquecidas, recrudescentes e imemoráveis.
Pois as memórias que hoje me visitam, espetaculosas, são as daquelas noites em que trocei sorrisos e juras naqueles olhos admiradores, deliciando-me integralmente nas mãos de um autêntico apreciador. Deixei, e sempre deixarei, que se faça espectador de minhas mágicas e sortilégios, que seja sempre o enamorado de minhas poesias e falácias declamativas, e que, lado a lado, ensaiemos juntos, sempre juntos, objetivando a perfeição inalcançável, mas que seja um inalcançável alcançado nos sorrisos um do outro, em cada um dos versos que hão de ser silenciados por beijos novelísticos. Para que a maquiagem nunca derreta, para que a música nunca se cale, para que a cortina nunca se feche. Pois o alimento do artista é o aplauso, mas nunca, em tempo ou lugar algum, outras mãos me aplaudiram tão vigorosamente como as tuas. 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Verbosidade Esverdeada


É engraçado. Às vezes, na verdade muitas vezes, parece que eu me esqueço de olhar para o céu. Deveria, se não para orar ou agradecer, ao menos para me certificar de sua existência ou para averiguar se, por ventura, assim como no meu esquecimento, ele tenha talvez se esquecido de amanhecer azul. Mas a aura anilada e anilhaçada do universo continua sempre pairando sobre a cabeça dos amnésicos, como eu, inspirando as apaixonadas poesias, como as minhas, e toldando as carícias das provenientes paixões, como a nossa.
É sempre tão azul, como se para enfatizar a verbosidade esverdeada dos teus olhos, dois gudes esmeraldinos perscrutando até a última doçura do mel que colore o meu olhar, escandindo cada uma das mentiras que nunca foram proclamadas. Ora, pois somente a verdade reinou entre nós, magnífica, imperando como uma rainha singela e inexpugnável. Já que é sempre tão verde, de um verde tão vigoroso, que carrega em seus vislumbres a experiência das rameiras do norte e as jovialidades das parreiras do sul. Ao leste e ao oeste, porém, era o vigor dos teus braços que me envolvia, laço arrebatador cujo nó era acintosamente tecido por fiapos de noite, tingido pelas várzeas fálicas do desejo e descosido pela agulha intumescida da paixão.
Apaixonado foi o intumescimento primeiro, uno e derradeiro, proferindo junto aos meus gemidos juras de amor que jamais hão de ser conspurcadas. Conspurcado foi intento ardiloso que de boa vontade me fez possuído pela rudeza dos seus dedos calejados e aquecidos, como é do meu agrado. E então, sentado, fiz do teu colo dominador o meu trono, minha cela de estribos invisíveis e indizíveis, me levando a galope até a planície mais sublime do seu coração, esmiuçando cada gota viscosa do seu inócuo prazer.
Já o meu, digo, o coração, alucinou-se ao testemunhar o quão linda e providentemente as sucessões foram se sucedendo, cada coisa ao seu devido e indevido tempo, naturalmente, como uma flor que desabrocha desesperada, no entanto sem pressa. Tenro como só o amor sabe ser, apreciando o valor de cada olhar, de cada suspiro e de cada cor. O azul eterno do céu estrelado, a ênfase esverdeada dos olhos aguados, o arroxeado dos lábios beijados, a brancura indecente da pele e a transparência do suor orvalhado pelos nossos corpos desnudos, umidificando as vistas e embaçando as janelas.
E as janelas, traiçoeiras, mostraram-me de um ângulo inconcusso a resplandescência enegrecida de um céu que por vezes me esqueci de olhar, tão plácido, tão faceiro. Um céu cujo horizonte não me era visível, pois nas na fronteira do meu olhar pensativo só se vislumbrava seu nome. E as estrelas e a lua, outrora tão abandonadas, ganharam hoje em meu peito uma nova significação, por que agora eu tenho, quando olhar para elas, alguém em quem pensar e lembrar. E fazer que essa lembrança transcenda as fronteiras da distância, para que eu seja sempre seu e você seja sempre meu, até o nosso sempre durar. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Falácia do Eunuco


Eu me lembro de quando as mulheres
Ainda versavam minha pobre rima
Pois hoje em repugno aos lábios de baixo
Dispenso os beijos dos lábios de cima

Ora, por mais que os ventres do Éden oriundos
Fizeram-me um dia caviloso prisioneiro
Não me sucedo às várzeas da fenda tão fecunda
Pois nunca fui cativo que honrasse o cativeiro

Confesso, já provei a doçura da carícia alilasada
Mas somente o suor, sal irídio do oceano
Tal como a aspereza da areia marejada
Detêm o calor que me arrefece
Outrora intumesce
Meu corpo insano
Pobre falo diocesano
E esta ferida arroxeada

Sim, eu já me deitei com elas
Mas a cama d’eles me foi mais convidativa
Tal como uma donzela
Abri-me à falácia da goela
 Como se aquela
Sinuosa e esquiva
Moça inepciosa, tão bela
Possuísse-me, impugnativa

Festejo pelas núpcias
Que nunca serão consumadas
Das ancas, ao contrário das minhas, tão súcias
 Inexpugnavelmente seladas

Seladas foram quaisquer possiblidade de abrasão
Que me alcance por afeminado intento
Deflorados já foram meus selos pelo alazão
Que me conspurcara num fraquejo tão sedento

Valha-me, clitóris que uma só vez me aninhou
No primogênito e inócuo rebento
Socorrido no conspurco aqueijoado
Por másculas mãos afagando meu alento

Alenta-me, então, mãos de mulher
Como boas amigas, companheiras de caça
Pois se o desejo por ti ainda me convier
Juro, cairei em desgraça

sexta-feira, 2 de março de 2012

Brisa ao crepúsculo



Um dia, sentado na varanda, talvez no ontem, talvez no amanhã, ouvia eu uma música melodiosa que trovava histórias de um inesquecível mundo de lá. Embevecido, observei de olhos aguados as verdades trazidas pela brisa ao crepúsculo, singela ventania que afagava as folhas das árvores que na época cresciam na porta de minha casa, fazendo-as dançar como o lenço de uma donzela em despedida.
Aquela música, assim como outra qualquer, me trazia lembranças suas, ora, pois mesmo morto eras tu para mim a única memória viva. E as trocistas histórias de um mundo de lá eram por verdade os indizíveis causos de um mundo seu, fabulosos sortilégios de um mundo seu,  cujo meus pés pisaram o chão um dia, porém, não mais. Nunca mais.
Agora, pois, ouço em cada nota o tilintar de uma lágrima que se quebra, e em cada verso escuto as promessas vazias advindas de vozes ininteligíveis, aliás, de bocas e lábios ininteligíveis, inexistentes e distantes como as vozes d’Ele ou d’Outro qualquer. E, como que por consolo, ou talvez para me escarnecer, vislumbro agora em cada folha que balança uma mão calejada dançando a valsa do adeus.
Tristeza maior se solida quando o vento freia e a música silencia. E as folhas bailarinas, então, jazem inertes, mortas, afrontando as metáforas que outrora proclamei. O silêncio, por sua vez, faz-se ainda capaz de carregar os ecos daquela doce canção, sim, pois somente o silêncio tem a voz cujo todo ouvido é capaz de ouvir.
É tão estranho, pois não? Flagrar-me sentado à porta de casa, envolto por uma calmaria que parece não me pertencer. Vento e música, nem mesmo na ternura dos sonhos eles têm o costume de me visitar. É tão engraçado, talvez assustador, perceber que as árvores cresceram sem que eu as regasse, que os verões e invernos passaram sem que eu os festejasse, que as pessoas cresceram e envelheceram sem que eu ao menos as amasse.
É complicado. Não sei se fui que ousei ultrapassar as barreiras do tempo ou sei foram os relógios que me abandonaram nas revalescências do passado. O pouco que sei é que, agora que você se foi, nem à minha frente nem às minhas costas existe alguém a quem gritar por ajuda. Dentro de mim, talvez, ainda haja, mas o talvez nunca me fora uma palavra que soasse convidativa. Acima de mim, a inexistência de Deus. Abaixo, todo o resto. À direita e à esquerda, aqueles por quem ainda tenho apreço. E nas ilusórias fronteiras dentre essas dimensões, meus sonhos e minhas poesias, todas dedicadas a ti, imbatíveis e inomináveis.
Inominável é o vazio que assola meu peito, me fazendo proferir palavras que não convinham ser lidas por olhos humanos. Temo feri-los. Temo abri-los. As feridas, porém, gangrenam-se trazendo à tona o cheiro da desgraça, invalidando as vistas e reavivando o coração. Ora, pois somente a dor é capaz de autenticar a vermelhidão da carne e provar que não existem brisas crepusculares correndo pelas artérias e resfolegando pelo coração. Só mente o sangue prova a existência da vida, assim como somente uma ferida pode revelar o que um homem é por dentro. No entanto, são poucos os que sabem que ainda mais doloroso que sanar uma ferida é sobreviver a ela. Pois pior que um cão que ladra, mas não morde é um cão que morde, mas não mata. Mais triste que o amor que sinto por ti é saber que sobreviverei a ele.
Sei que nem a música nem a brisa e nem a poesia detém o poder de fechar tais feridas, mas as lágrimas por elas provocadas talvez o tenham, talvez o façam. Sentar à varanda e contemplar o balé das árvores não me trará descanso, mas ao menos sei que a morte também não o trará. Culpar a Deus ou acusar o tempo não me fará justiça, mas a justiça além de cega também é surda, possivelmente muda, portanto me deixem praguejar em paz.
Quero apenas ser humano, louco, hipócrita e apaixonado. Ferir e ser ferido, amar e não ser amado, ser amado e não e amar, e em algumas poucas vezes me deliciar na sombra da reciprocidade. Quero jurar amores que findarão antes que o sol amanheça, assim como quero amanhecer sem ter que jurar o meu amor. Quero ser igual sem ter que lutar por igualdade, e na maldição da liberdade me fazer superior. Nada sou, ninguém é, e assim me vejo no direito de ser o que ou como quiser. Pois pouco importa a casa onde você mora, a textura do seu cabelo ou a cor da sua pele: dentro do peito o coração é vermelho, e as entranhas fedem. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Águas de Profanação


O primeiro verso é sempre o mais difícil. Assim como uma lágrima que teima em se pendurar nas pálpebras o primeiro verso sempre se agarra insistente na ponta dos dedos, recusando-se a fazer verbo da carne que intumesce meu coração. Quando padece a teimosia, porém, observam-se lágrimas que jorram da ponta da caneta para o papel, e também versos que escorrem dos olhos para a ponta do queixo e, depois, para o peito ou para o chão. Que descuido.
Lágrimas e versos não devem ser desperdiçados, é sabido. Foi um tarado num sonho que uma vez me ensinara e eu nunca me esqueci. Ora, pois um tarado nunca deve ser contradito, eles sabem das coisas. Não convém que lágrimas sejam derramadas para regar a terra, assim como versos não devem ser proferidos em louvor aos céus, dissera ele. No entanto a teimosia novamente se fez soberana e a terra continuou encharcada e o céu continuou resplandecido. Uma lástima, justa de minhas palavras de queixume.
Queixo-me pelas lágrimas nunca derramadas, pelas poesias nunca declamadas e pelas nádegas nunca defloradas. Pobre daqueles que conservam as pregas do cu, tão fechadas e inflexíveis quanto suas cabeças condicionadas, e tão imundas quanto seus corações. Rezo pelos que nunca sentiram na face o sabor e cheiro da porra, e que carregam à sombra do nariz bigodes grisalhos penteados pelos dedos mansos da moral e dos bons costumes. Lamento todas as noites pelos homens de espírito aberto e de corpo fechado, de mentes lacradas e olhos arregalados. Lamento sim, em altos brados inclusive: gemendo.
Lágrimas ao léu? Inaceitável! Versos ao relento? Inconcebível! Mas e quanto às várzeas da masturbação e aos respingos de suor e saliva? Que transbordem pelas ancas e pelos traseiros dos poetas e dos choramingões! Minhas perguntas foram claras, mas as respostas foram leitosas como só as palavras de um tarado poderiam ser.  Lembro-me daquele sonho assim como me lembro de cada uma das camas sobre as quais me deitei, de cada companheiro e de cada baixaria sussurrada em meu ouvido. Pois sussurrados devem ser os ensinamentos de maior valia, para que somente mestre e pupilo possam ouvir.
Estas sim, as baixarias, é que devem ser versadas em poesia e orvalhadas em lágrimas, águas de profanação.  Pois o último verso é sempre o mais fácil e o mais bonito. É como o amém de uma oração fervorosa, ou como o ultimo gemido tântrico de uma noite de verão. O último é aquele que ecoa por mais tempo, é o que alcança o maior número de ouvidos, o que pinga um ponto final numa história onde não há desfecho. É como gozar, é trivial. Ora, pois, como de costume, o melhor é guardado para o final. 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

É proibido pisar nos sonhos


É proibido pisar nos sonhos. Uma vez eu li esta frase bonita, acintosamente grafada na cabeceira de uma das camas sobre as quais me deitei e gemi. Não me recordo qual, tampouco me lembro com quem. Fulgurantes, palavra por palavra dançaram na frente dos meus olhos, gradualmente se formando em verso, exalando poesia. E uma tristeza inexorável, daquelas que quando surgem ignoram todo e qualquer outro auspício, tomou conta do meu peito, transcendendo as paredes da respiração. Sufocado, então, calei-me, deixando apenas que as palavras, feito lágrimas, rastejassem pelas pautas de um papel empalidecido, tão claro e vazio quanto meu coração, vermelho e mortiço como uma campina depois da batalha.
A batalha, porém, travou-se não numa campina, mas por sobre fronhas e lençóis perfumados. Pois perfumada é a dor que se anui em meu peito, que carimba um cheiro doce toda vez que me perpassa, perpetuando-se numa tintura incolor que nem mesmo o álcool pôde lavar. Entrementes, foi submetido aos langores de um bom vinho que meu corpo se abriu aos intentos do vigor, embevecido de prazer, rendido aos braços ilutópicos da fornicação. Felicitado, como que num milagre, flagrei-me de quando em quando sorrindo feito a criança que eu nunca fui, bravateando uma inocência que jamais me pertencera.
Eis que surge ao meu redor o pendor da consciência, que me obriga a relembrar que estes instantes de iluminação não são duradouros e que essa fábula de alegria não é perene, dita que essa alegria é de fato autêntica, porém não me pertence. É justamente aí, no poder tocar sem poder levar, no poder dormir sem poder sonhar, que se consiste o sofrimento, ora, perfumado sofrimento. Dói sorrir e não ser sorridente, estar alegre e não ser feliz, estar aqui e pertencer a outro acolá. É como visitar o paraíso, mas não poder viver por lá, tornar ao caminho que leva ao inferno e fazer dele minha casa. Só que o conformismo, é notório dizer, nunca foi uma dádiva que me apetecesse.
E é por isso que, ora no inferno, ora no paraíso, vago pelo limbo dos homens frustrados, carregando na sola dos sapatos a sujeira da decepção. Escuto sempre no ecoar dos meus passos um ruído de devastação, e eu não sei se são admiradores rastejando-se em meu encalço ou se são lágrimas tamborilando pelo chão. Foi então, num instante entre o aqui e o agora, que notei o peso da resipiscência que pairava por sobre a minha cabeça e sob ela descalcei a decepção dos sapatos que machucavam meus pés. Raspei dos sulcos de seus solados emborrachados toda aquela imundice odiosa e vi, quando os fanicos cascatearam pelo chão, que eram na verdade fraguimentos do meu sonhar. E então, na minha memória tão sadista, me lembrei de uma vez que li uma frase bonita, acintosamente grafada na cabeceira de uma das camas sobre as quais me deitei e gemi. Não me recordo qual, tampouco me lembro com quem. É proibido pisar nos sonhos, dizia. Algo mais ou menos assim. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Resipiscência


Dói tanto. E as lágrimas rastejam pelo meu rosto, ácidas, abrindo caminho por entre os vincos e por entre as quinas, escrevinhando curvas neste meu esgar indolor. Da beira dos meus olhos elas saltam das pálpebras como quem salta de um precipício, se lançando ao vazio, vertiginosamente angariando novas inexistências, novas indecências, novas dores. As velhas dores, porém, assomam-se como que por pirraça, pisoteando rudemente o meu coração. E o coração, outrora tão vigoroso, guincha nas revivescências do cansaço, esvaindo-se nas mãos da desistência, desconseguindo-se.
Sinto em cada grota do meu corpo a carência daquele sorriso que a luxúria pela luxúria não é capaz de causar, e minha pele se eriça ao perceber a frieza da solidão, ao imaginar o sorriso se estampando em outros rostos – sorrindo-se para outros rostos. Minhas mãos, tão pequeninas, estremecem perante a perspectiva de nunca mais tocar-lhe a face. E a face, contorce-se como que atingida por um bofetão, daqueles que nocauteiam a alma e explodem o crânio. O crânio, por sua vez, envolve agora meus pensamentos para que eles não escapem e firam algum inocente que cruze meu caminho. Pois o que me resta é a honra de admitir as culpas, tanto elas quanto os méritos. Méritos de um fracassado e, por conseguinte, os fracassos de um merecedor.
Deixei que a felicidade escorresse livre pelos meus dedos e, pelo sim ou pelo não, agarrei-me ao talvez e o que me sobrou nas mãos foi a certeza do nunca. Certeza que se perpetuou entre nós, imbatível e nua como uma muralha. Muitos não sabem que, por verdade, muralhas não servem para proteger nem para trancafiar, mas que têm a função de nos fazer imaginar o que há do outro lado. A tortura, no entanto, se consiste em saber e já ter provado do que do outro lado há, porém ser incapaz de provar novamente. Eis o martírio que hoje me escapa pelas palavras: saber que não lhe pertenço, mas que tive a chance de pertencer.
Como é de praxe, e é sabido por todos e por mais alguns, a minha chance se perdeu em algum momento entre o talvez e o jamais, me deixando velar a tristeza do quase, imaginando tudo o que poderia ter sido e não foi. É, como se pode notar, uma dor muito consciente, o que não significa que seja menos dolorosa. Ora, tem-se que a razão é inimiga do alento, pois saber das coisas as fazem parecer mais reais e, consequentemente, mais intensas. Mas as consequências não puderam e não quiseram ser preditas pelo meu coração apaixonado e hoje pago em altos brados pelas culpas de um amor silencioso.
Sim! Amei-te calado assim como odiei aos berros. Surpreendi-me, por fim, sendo estrangulado pelos braços do silêncio, tão fortes e viris quanto os teus. Sei que é tarde, mas o tardar das lágrimas não poderia abonar o atraso do sentimento? Sei que não. Pois a esperança me abandonou assim como você nunca fez, era eu quem nunca estivera ali para ser acompanhado. Hoje o arrependimento mina pelos meus olhos e encharca meu peito magro, mas que retumba quando ouve teu nome. E eu me envergonho, por sempre ter dito que é preferível chorar por aquilo que fiz do que  por aquilo que deixei de fazer. Agora minha língua está queimada assim como meus lábios estão molhados. E eu já não consigo mais sonhar, nem sorrir e nem cantar. Dói tanto. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sonhos, Muriçocas e Tatuagens


Ontem, antes de me deitar, fechei as cortinas, como de costume, para que os maus pensamentos não entrassem pela janela e assombrassem meu sono. Mal sabia eu que eles já haviam entrado, cavalgando nas costas das muriçocas que agora faziam serenata de baixo do meu colchão. A música era irritante, porém melodiosa e trazia nas notas mais baixas um sussurro que clamava por profanação. Era como uma oração antes de jantar, laboriosa e sombria. Muito fervorosa, por sinal.
Quando apaguei a luz elas se calaram por um momento, fungando a escuridão, sondando o ar no intuito de escutar minha respiração adormecida. Mas ao ouvirem meus pés tateando pelo quarto a procura de um travesseiro que caíra ao chão, voltaram a cantar, uma a uma, ainda mais alto e mais irritadiças do que antes. Eram geniosas, aquelas danadinhas! As muriçocas não me incomodavam, sabe, nem suas músicas nem seus beliscões. Sempre gostei das coceiras que me provocavam, eu tenho o sadismo como um dom, mas quando finalmente me deitei, percebi que eram outros os comichões que me importunavam.
Meus sonhos foram se construindo lentamente à medida que a subconsciência aflorava e o corpo abandonava gradualmente a fronteira da realidade. Além da fronteira, as ordinárias sugadoras de sangue já se embeveciam, mas isso pouco me incomodava. Aquém da fronteira, no entanto, uma janela semiaberta se materializara, grande e acortinada. Pelo vão entre um vitral e o outro, caiam pesadas gotas da chuva que há dias açoitava os telhados das casas e desbotava a paisagem, mas teu pequeno quarto continuava aquecido e perfumado por algo que recendia do teu corpo. As gotas invasoras, geladas e atrevidas, pintavam bolotas escuras no forro vermelho da sua cama, davam a impressão de que vinho havia respingado ali. Mas os respingos eram outros, indecentes e inomináveis.
Sonhar com você nunca me foi novidade, só que geralmente eu não me recordo na manhã seguinte. Quando abri os olhos, porém, estava tudo tão fresco na minha cabeça que cheguei a sentir as têmporas doloridas, tornando a fechar os olhos, desejoso de que o ar matinal te apagasse da memória. Mentira minha, isto eu não desejei. Deveria, mas não desejei. Eu covardemente me apeguei àquele sonho assim como me apeguei às tardes primaverais que há tempos não desfruto contigo, e as flores da saudade desabrocharam rubras e espinhosas na teimosia do meu coração. Teimosia maior registrou-se em meus olhos, que se recusaram ceder perante meu esgar de tristeza e encararam os forros da minha cama na ilusória esperança de que eles se avermelhassem. Mas as fronhas e lençóis, tão teimosos quanto, continuaram brancos, sempre brancos.
É que os sonhos, por mais que sejam apenas sonhos, sempre me trazem a verdade. A verdade de saber que tudo o que você representa é um espaço vazio na minha cama, uma voz a menos na solidão das minhas noites, uma ausência que se soma a todas as outras do meu coração, lúgubres e inconcretas. Quando me levanto, nem mesmo as muriçocas estão mais ali para me fazer companhia. Somente eu, meus sonhos e uma janela fechada, encerrando um mundo no qual não me encaixei. O encaixe, tão solícito, faz-se nas entranhas do meu corpo quase que diariamente, preenchendo-me do vazio que só os homens aguentam, do mesmo vazio que transborda do seu peito forte e viril. 
E a virilidade, nesta manhã, recendeu pelo meu quarto e eu pude sentir na pele um pinicar que não provinha dos beijos sanguinários das minhas estimadas muriçocas. Era, para minha infeliz surpresa, mesmo depois de tantos dias, o seu cheio tatuado no meu corpo desnudo. E o meu alento foram lágrimas não derramadas, imaginando que há alguns segundos talvez estivesse você ao meu lado, dormindo comigo, me abraçando pelas costas, me chamando por um nome que é só meu. E meu corpo escarnificado ardeu ao ser banhado pela realidade. Pois uma tatuagem não se esconde, não se apaga, não esquece. Perpetua-se. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Lua Velada


Naquele dia, aliás, naquela noite, tínhamos combinado de ver a lua juntos. A lua, porém, orgulhosa como só ela sabe ser, escondeu-se por de trás das nuvens, deixando a entender que não éramos dignos de contemplá-la. As nuvens, por sua vez, ficaram tristes ao ver nossos olhos mirando um céu vazio e comoveram-se copiosas chorando por sobre a face da terra. Depois de desaguadas, então, a lua se surpreendeu nua e descoberta deslizando pelo céu, ostentando uma brancura petulante, ignorando nossos beijos e nossas gargalhadas triunfais.
Nos outros dias, antes que a lua se arredondasse de todo e me trouxesse você, estivera eu mergulhado numa apatia monstruosa. Ora, as piadas continuavam engraçadas, porém não tinham mais o poder de me fazer gargalhar. Mas naquela noite não, naquela noite banhada pela lunar petulância não, naquela noite eu deixei que os risos me arrombassem a garganta e que as lágrimas me explodissem nos olhos, como que uivando em homenagem a velha gorda e pálida que pairava luminosa no topo do céu. E os sorrisos, tão brancos quanto, me escapuliram sem o menor pudor. Mérito seu, deve-se admitir.  
E as gargalhadas, já desenferrujadas, só se calaram quando confrontadas ao silêncio dos beijos, que deslizaram gananciosos pelos meus lábios, fazendo-os avermelhar. Eram beijos orvalhados como uma fruta colhida pela manhã, enérgicos como as carícias da juventude e fortes como a segurança da maturidade. Ora gelados, ora enluarados. Às vezes desencontrados, negando fogo e cedendo carícias. O fogo negado, no entanto, fazia-se flamejante quando concedido, queimando-nos por inteiro e nos fazendo agonizar em labaredas de irresponsabilidade. Lindas labaredas, carinhosas como tuas mãos macias.
Meu corpo, tolo e sedento, arrepiava ao mínimo toque, respondia ao mínimo movimento, gracioso e inigualável. Teu corpo, forte e hirsuto, me envolvia no máximo sonho, preenchia-me no fálico intento, carinhoso e incansável. Incansável era o ardor que ardia em meu peito, incandescente como o sol da meia-noite. E a dita metade da noite chegou sem ser convidada, me alertando sobre o momento de voltar ao mundo real, onde as nuvens não choram e as camas são vazias. Mútuo era o pesar em nossos olhos que desejavam se reencontrar na manhã seguinte. Mas ainda assim sorrimos a guisa de boa noite, e dormimos separados carregando os resíduos de um lindo sonho, partículas de saliva e suor um do outro, e respirando os raios do luar que outrora nos amaldiçoara, mas que agora velava o nosso adormecer.