terça-feira, 5 de maio de 2015

A Falácia do Espelho



Tudo aconteceu numa tarde de outono, sufocante demais para nomeá-la inverno, cinzenta demais para chamá-la verão. Naquele dia fatídico, como em todo dia fatídico, eu acordei rebuçado de alardes e dores, tendo sempre o cuidado de me manter longe do alcance das janelas, ora, pois o céu estava carregado e trovoava em sussurros: eram as nuvens conspirando algo que cairia sobre mim. Se eram chuviscos sussurrantes ou tempestades uivantes, àquela hora eu ainda não sabia, mas no fundo eu já imaginava que viria em pancadas. Passava pouco das três – a hora da crucificação, como dizem os antigos – quando as semanas de calvário que pesavam sobre os meus ombros resolveram ceder sobre meus joelhos magros, um dia esfolados de ave marias, hoje escoriados pela desonrosa posição dos cabritos. Bem sabem os sodomitas que nem tudo que se faz ajoelhado é rezar.
Lá fora, onde meus gemidos não são ouvidos, o mormaço dava lugar a uma brisa gelada que assobiava, não como uma corrente de ar se enfiando por uma fresta, mas obscenamente, feito um bêbado chamando a atenção de uma prostituta. Como um vira-lata que escuta a voz do dono, aquele chamado, outrora tão familiar, me fez levantar as orelhas e abanar o rabo, e por um breve segundo eu me esqueci das coleiras da moral e das cruzes calvariantes que por semanas carreguei.  Eram cruzes de silêncio, esculpidas em toras de indiferença, amarradas com cordas de sufoco e pregadas com estacas de perfurar corações. Poderiam ser obra de um marceneiro satânico, mas eram, lastimavelmente, os presentes que recebi do homem que mais amei. De olhos e ouvidos virgens me mantive por muito tempo, mas foram tantos os silêncios que bastou um assovio gelado numa tarde de solidão para macular as juras de amor eterno que dediquei a ti. Eis a falácia do reflexo, o paradoxo do espelho, o princípio alquímico da ação e reação, onde o amor e ódio não são imagens contrárias, mas inversamente proporcionais.
Reflexo por reflexo, nu perante o nu, lá estava eu refletido num retângulo prateado que muitas vezes foi moldura para o nosso amor. Naquele espelho cristalino demais, naquele banheiro sempre limpo demais, permiti que a imundície do meu coração solitário me fizesse companhia, e que a fúria da rejeição distorcesse a verdade, como a distorção de um flash disparado contra um espelho. E sendo assim, por um descuido, ingenuamente capturei o registro do meu pecado, sem me atentar que o esgar indolor que se escondia no fundo dos meus olhos jamais poderia ser fotografado. Para a posteridade deixei o retrato da minha maledicência, para finalmente descobrir que não há forma de fotografar o que há no meu coração. Hoje, sozinho nesta minha cela que alguns chamam de quarto, pago a sentença perpétua por um crime que não cometi. Sentado nesta cama fria que já nem tem mais o meu cheiro, encaro com rancor a última fotografia do meu álbum de fracassos.
É o que resta ao assassino retardado, que ao invés de tecer um crime sem suspeitas, tropeça na dúvida, esbarra no medo, se acidenta na fuga, deixa um lamaçal de pegadas e provas espalhadas pelo chão e na hora de fazer sua vítima, por fim, descobre que a arma não tem munição. Não obstante, preparo um dossiê de arrependimentos e o entrego nas mãos do meritíssimo homem que me responde sempre com o mesmo bordão de justiça: “Você tem o direito de permanecer calado!”. Ainda que mudo, mesmo que calado, temo me engasgar com o grito de “eu te amo” que há muito trago entalado na garganta, não porque eu não conseguisse dizê-lo, mas por medo de que ele nunca fosse respondido.  Doravante, sem álibi e sem perdão, espio através do meu espelhinho de cabeceira – muito menor que o seu – e vislumbro o olhar perdido da única testemunha da minha inocência. Meus olhos, no entanto, castanhos e cheios de argumentos vazios, só podem me alentar com o mesmo soslaio impiedoso que muitas vezes te flagro lançando sobre mim. Como podem ser os teus olhos tão meigos e, ao mesmo tempo, tão duros?
Dureza por dureza, hoje posso apenas me conformar com a rigidez do teu corpo dentro do meu, como uma esmola, uma gorjeta, um prêmio de consolação por bom comportamento. Minhas tardes de outono, hoje, diferentes daquela em que por um infortúnio te perdi, me convidam a banhos de sol fora da cela que sequer me queimam a pele – como é do seu agrado – e que tampouco me aquecem o espírito. Na frialdade do inverno que se aproxima, sofro por antecipação às noites que não me aquecerei em teus braços, imaginando os usurpadores de um lugar que nunca acreditei que fosse meu. Quisera eu que, por um milagre, você pudesse ler o reflexo dos meus olhos e visse que nem só de fotos no espelho se faz um autorretrato. Minha autoimagem é muito mais diabólica que uma silhueta nua na penumbra de um banheiro, mas a escuridão que se aloja no avesso das minhas pálpebras é angelical como um céu estrelado, anoitecendo meus medos sempre que fecho os olhos pra receber um beijo seu.
Mas palavras – como você insiste em dizer – são só palavras. E um poeta, por sua vez, é só um poeta. Dói admitir que eu seja apenas mais um. Um escravo do verbo, a serviço do que é duro ao coração e macio aos ouvidos. Dissera uma vez um sábio, um velho amigo dos tempos de criança, que na sua mais humilde opinião as palavras são, sobretudo, nossa inesgotável fonte de magia. Sob a maldição do silêncio eu me apaixonei por ti, me contentando em lamber e sugar uma língua salivante, porém adormecida. No sono encantado dos príncipes, onde a magia das palavras não é mera poesia, mas suprema lei, muitas bocas se satisfizeram na minha, mas apenas uma me despertou do eterno pesadelo. Desde então, depois que a flâmula da minha lealdade chegou a galope, jamais cavalguei ante um brasão que não fosse o teu. Cabe a ti o decreto de despir essa máscara de bobo cortês e subir ao trono que é seu por direito. Em algum lugar neste calabouço que você chama de coração, eu sei, há uma multidão que clama: “Vida longa ao rei!”.
E assim, enquanto minhas metáforas tolas brincam com a longitude da vida, a minha se encurta a cada sorriso que você me nega, a cada abraço frouxo e ligeiro que você me dá, a cada gemido de prazer que se perde no silêncio das madrugadas. Insisto, entre reflexos culpados e versos confessionais, em tentar descobrir uma forma de abrir o seu peito e plantar dentro dele a verdade. Pois ser artista, ao contrário do que pensa, não faz de mim um fabricante de mentiras, mas o oposto: um cultivador da mais intensa verdade. É fazer das vísceras coração, e entregar a ti este meu coração indigesto, incapaz de engolir as ofensas que ferem meus ouvidos anestesiados de paixão. Pois ainda que não nos sobre uma gota de amor, que me reste de herança a poesia: “Sabemos que existem sombras para as sombras das coisas, como um reflexo visto no espelho de um espelho. Sabemos que existem círculos dentro de círculos e dimensões além de dimensões. A própria realidade é uma sombra, somente uma aparência aceita por aquele cujos olhos evitam o que está além.”. 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Entre o fim e a partida



Eu tive um milhão de chances de dizer que te amo
Mas escolhi fazê-lo na hora do adeus
Saindo pela tangente mais íngreme do nosso triângulo
Esperando um “Não se vá!” jamais pronunciado

Que belo sonho, por sua vez, seria
Ouvir tua voz me pedindo pra ficar
Não com este olhar cheio de certezas redondas
Mas com estes olhos redondos que já não sabem suplicar

Imagine, meu amor, tal belo sonho
Como aqueles em que o despertar nos enlutece
No alpinismo diário que nos faz saltar da cama
E abandonar nossos amores entre os lençóis amarrotados

Era uma campina verde malhada de nuvens que apostavam corrida
Sobre um casebre abandonado à guisa de um convite para entrar
Havia um velho, um homem e um menino
Três pares dos mesmos olhos de gude reluzindo pra mim

E então as noites, por fim, desamanheceram
Transformando-te num espaço vazio sob o cobertor
Em pensamentos que esmagam o travesseiro
Neste pesadelo bocejado logo pela manhã

E o adeus – ah, o adeus! – se aproximou como uma nuvem chuvosa
Cada vez mais próxima, cada vez mais negra
Nesta cidade cinza onde os sonhos nublados não se realizam
Onde a chuva mal tira a poeira dos arranha-céus.

Da sacada de vidro onde por vezes nos amamos
Não assisto serenatas, apenas os faróis e a pressa dos transeuntes
Luzes e sons que pulsam em nossos corpos entorpecidos
Extasiados demais pra distinguir amor e euforia

Daqui de cima é tudo tão bonito
Como a maquete de um arquiteto perfeccionista
Ruas, praças, prédios, casas e avenidas
Povoados pela imperfeição dos que se amam, casam e procriam

Amar é um sonho que se sonha ao meio-dia
Quando o relógio não marca o tempo que temos, mas o que nos resta
Pois o futuro é um tempo que existe entre o fim e a partida
Apenas um segundo entre o “eu te amo” e o “adeus”. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O último dia do ano


Faltavam três minutos pro último dia do ano quando eu me peguei pensando no que eu faria, no que eu queria e com quem eu estaria naquele mesmo horário do dia seguinte. Sem que me desse tempo de responder a essas melancólicas perguntas, o último dia do ano engoliu meus três minutos de epitáfio e surgiu sem se anunciar ou pedir licença, como se as crises existenciais de um jovem garoto no auge dos vinte anos não tivessem a menor importância. Em algum lugar longe da minha casa, doze badaladas haviam soado sem que eu pudesse ouvir, no mesmo momento em que um silêncio sepulcral se instalou no interior do meu quarto, um pouco pequeno pra tanta bagunça, um pouco grande pra tanta solidão. Era como se, predizendo as gargalhadas e fogos de artifícios da noite seguinte, meus ouvidos resolvessem resguardar-se e esperar até que fossem arrombados pelo irritante som da alegria humana. Ah, que belo sonho seria se o único ruído a ecoar pela eternidade fosse o chiado de minha caneta arranhando o papel, como o sibilo de uma serpente venenosa, porém inofensiva.
E assim se iniciou o último dia do meu último ano: cheio de silêncio e veneno. Era pouco mais de meia noite quando decidi escrever esta carta de suicídio, não que eu me importasse com quem ficasse pra trás, mas para ouvir uma voz qualquer, ainda que dentro da minha própria cabeça. Muitos não sabem, mas escrever é a mais bela forma de conversar consigo mesmo. Palavra por palavra, minha acidez peçonhenta foi se derramando sobre o papel num copioso tom de despedida que noutra situação eu consideraria patético, mas que naquela conjuntura uma pitadinha de morte havia dado um sabor mais perspicaz à coisa. Ora, pois o que há de mais piegas do que despedidas, não é verdade? Ah, o fim... São tantas coisas para se dizer no fim! Não sabia se prestava uma nota de agradecimento a cada amigo ou se redigia um testamento, mas considerei que fosse um tanto indelicado deixar como herança apenas um caderno rabiscado, uma carteira de cigarros, meia dúzia de moedas e minha estimada coleção de arrependimentos. Para a grande maioria, infelizmente, aquilo era pouco demais.
Decidi por um final genérico e cheio de rodeios, para que os entes que aqui permanecerão não ficassem demasiados deprimidos. Meus queridos, há algo em mim que não cabe mais entre nós e, por motivos de ordem maior, me despeço deste mundo sem mais delongas. Aos que ficam, desejo e aconselho que amanhã por esta hora não deixem de brindar e soltar seus fogos coloridos, como é de costume. Receio, porém, não ser possível desta vez me juntar a vós para amá-los e saciá-los, como também é costume. Quanto à saudade, hei de senti-la tanto quanto vocês. Vocês, no entanto, não hão de senti-la tanto quanto eu. Aos que não puderam comparecer, peço que se despeçam deles por mim, e, por favor, não hesitem em beijá-los e lambuzá-los. Eles gostam bastante, eu garanto. Dito isto, desejo a todos um feliz ano novo e desde já agradeço a compreensão. Adeus.
Queria eu ter a diplomática frieza de tecer um discurso destes e cuspi-lo na cara de cada um dos homens que amei. O que me faltava, entretanto, não era frieza, tampouco diplomacia. O que me faltava era coragem. Por isso hoje me imolo, ainda que covarde, num último ato de bravura e me despeço desta batalha coalhada de corpos nus. Hoje me dispo não como um herói ou como uma prostituta, mas como o mártir de mim mesmo. Há de ser heroísmo salvar a própria pele? Há quem diga que sim, pois é preciso lembrar que todo herói é também um assassino, e todo assassino é também um apaixonado: seja pela vítima, seja pela morte em si.
A propósito, desta vez não venho me fazer de vítima: venho fazer uma vítima. É diferente. Analisando as características e as vulnerabilidades da presa, cheguei à conclusão de que, apesar de quase nunca se fazer de difícil, não era o que a gente chama de alvo fácil. Inteligente, audacioso, seguro... Precisaria mais que uma madrugada de solidão e um punhado de palavras tristes pra abatê-lo. Era o tipo de pessoa que se divertia passando a noite com um copo de veneno na mão sem tomar um gole, entendem? Decidir matar-se não é como decidir entre um namorado e outro, meus amigos.
E foram muitos os namorados, há de se admitir. E a cada um que se cansava e ia embora, um novo ingrediente tóxico era acrescentado à mistura: mágoa, insensibilidade, desprezo... Um coquetel sulfúrico capaz de embriagar e corroer as mais nobres almas. Muitos beberam deste licor que me umedece as entranhas, dedicando-me juras, promessas, dinheiro. O mundo a mercê do meu desejo. Bastava um beijo e tudo o que eu quisesse poderia ser meu. Poderia, mas nunca era. Era como se por medo de provar meu próprio veneno nos lábios alheios, meus beijos fossem sempre os primeiros, os únicos e os derradeiros. Um festival de encontros e despedidas, sempre no mesmo dia, hora e local.
Hoje, por fim, este quarto muito menor do que os que fizeram abrigo para essas cenas de amor proibido, está inundado não somente pelo silêncio do luto, mas também pelo copo de veneno que finalmente transborda de obscenidades. Estas são as palavras de um náufrago, que não sabe se bebe o veneno ou se se afoga nele. Num malogro exagerado, vejo-me numa versão tragicômica de Julieta, só que sem Romeu e com um mar de veneno ao invés de um frasco. Parece piada, mas é tragédia.
Amanhã, quando lerem isto, o garoto no auge dos vinte anos que aqui vos fala já estará morto. Sob o seu túmulo, é fato, muitos segredos e muitos nomes serão guardados. Pedro, Alberto, João... Um catálogo de noites de verão. E então, após a grande noite veranil sob a qual festejaremos logo mais, um sol todo amarelo vai surgir por trás das rochas, sejam elas montanhas ou sejam elas corações. Então alguma coisa mágica, dessas coisas mágicas que os céticos costumam duvidar, vai acontecer. E nesse momento sublime não haverá ressurreição, mas a gênesis de um novo homem, ainda apocalíptico, é claro, mas vivo. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Um caminho para a solitude


Tão vagos são os nossos destinos
Outrora escritos no livro do existir
Que, tão somente, a solidão dos vivos
Se tornou, se não, tão vaga
Quanto uma núvem branca
Sozinha na imensidão do azul

Tão só nascemos
Que à vaziez do  mundo trazemos
Tudo o que a muldidão do mundo
Não pôde lotar dentro de nós
Todas as miragens
Todos os destinos
Tão pouco traçados
Tão pouco desenhadas
Tampouco possíveis

O que seria de nós
Se não existissem  os outros
Para nos provar que a solidão é real?
Seríamos sozinhos e felizes
Ou não teríamos com quem aprender
Qual é a cor da felicidade?
Céus azuis e nuvens brancas
Seriam eles as felicidades
Das cores que nunca pintei?

O que seria dos outros
Se não existissem os eus
para que não houvesse entre eles
ninguém a quem chamar de nós?
Como poderiam serem eles sós
Se à sombra da companhia jamais se deitariam?
Seriam egoístas como um Deus
Ou insolentes quanto o Diabo?
Saberiam o limite entre o bem e o mal
Sem ao menos saber o limite do amor?

A quem amaríamos
Se não a nós mesmos
Uma vez que mesmo nós
Não desvendamos o mistério do amor?
Seríamos hermafroditas da morte
Parindo filhos da inexistência
Ou nos marturbaríamos à revalia
Fecundando a iminência do vazio?

A quem odiaríamos
Se não tivéssemos em quem depositar a culpa
De tudo aquilo que sonhamos e não fizemos
Ou de tudo que não fizemos sem poder sonhar?
Seríamos seres de luz e elevação
Ou rastejaríamos sob a treva do recolhimento?
Minguaríamos à inanição
Ou daríamos ouvido ao instinto?
Ensurdeceríamos sob o silêncio de outrem
Ou emudeceríamos sem ninguém para nos ouvir?

Tão vagos seriam os nossos passados
Doravante, escritos no livro do existir
Que, tão somente, a solidão dos mortos
Se tornaria, se não, tão vaga
Quanto um céu azul
Vagando na imensidão de uma nuvem sozinha

quarta-feira, 26 de março de 2014

Carta de Ingratidão


De todas as maldições que o homem é capaz de rogar, nenhuma tem maior poder que um “obrigado” dito a contragosto. Hoje, porém, no meu mundo onde maldições e bênçãos não existem, desvencilho-me de minhas vontades e venho agradecer cada vintém deste amor hipotecado – pois é amargo o sabor da garantia. São tantas as provas de amor que às vezes, confesso, sinto falta da dúvida, para afirmar e reafirmar que somente as perguntas sem repostas é que cabem a mim. As perguntas sem repostas, o futuro sem destino e as palavras desprovidas de verdade.
Ainda assim, te peço, acredite nas mentiras sinceras que ainda tenho a lhe contar. Pois se a realidade é uma questão de ponto de vista, me diga, onde encontrarei a minha se meus olhos estão sempre voltados para a escuridão? Desta vez, vestido de treva, venho despido de vaidades para o nosso solene acerto de contas, uma cerimônia onde os nós na garganta não foram causados pelas gravatas apertadas demais. Palavra por palavra, engasgadas de um jeito que você jamais ouviu, proclamei a saudosa despedida que não tardaria a acontecer, sempre mais cedo do que eu gostaria, sempre mais tarde do que eu deveria. Deveres por deveres, diante todos os que levianamente não cumpri, pela primeira e última e única vez, eis-me aqui lhe dedicando os meus versos satânicos e minha poesia de prazer exultante.
Amo-te, tortuosamente, amo-te! De um jeito torto que só a morte há de endireitar. Pois ainda que a chama da esperança brilhe verde como a faceta fajuta de teus olhos, é negra a bandeira da ingratidão, e com ela eu me rebuçarei no sepulcro. Dentre mortalhas de arrependimentos e lençóis de promiscuidade fui tecendo a colcha de retalhos da cama sobre a qual nunca mais dormiremos juntos, muitíssimo parecida com a que seus familiares ofereceram a mim. Muitos conhecem o anjo de rapina que eu sou em cima de uma cama, não é mesmo? Mas só você sabe dos demônios que me atormentam quando recosto a cabeça sobre o travesseiro.
Mais triste que te ver partir, foi permiti-lo. E por mais que eu tente me envaidecer com mais um troféu para a minha coleção de tristezas, não pude fazê-lo. Em respeito ao orgulho que tanto desprezas, amor, resolvi resguardá-lo e tentar retribuir todas as suas lágrimas que foram inutilmente derramadas por mim. Ah, que linda inundação seria! Mas os meus olhos, como é de costume, secaram com a mesma rapidez de uma chuva de verão sobre o asfalto, e eu pude ver evaporar as esperanças de construir um futuro bonito ao seu lado, onde os beijos seriam fartos e os gemidos, não tanto.
Doravante, não sei se por amor ou se por excesso de decência, percebi que era um futuro demasiado egoísta para que eu pudesse condenar você. Tão único, tão jovem, tão cheio de alegrias escondidas no próximo passo, na próxima esquina, depois da próxima dose. Obrigo-me a acreditar, num desespero insano de não me sentir tão louco, que de gole em gole você me esquecerá, e que um dia eu serei como o gelo largado no fundo de um copo sujo: uma lembrança gelada de algo bom, mas que já passou. Sei que não será tão simples, acredito que não será tão rápido, mas venho em nome de tudo que não é sagrado lhe implorar que de uma vez por todas engula este amor. Ânsias de vômito virão, é fato, mas acredite, antes a ânsia que a overdose.
Chores, amor, deságües, pois lágrimas azedadas não cheiram muito bem. E o odor de fracasso que acompanha aqueles de olhos interditados não combina com você, sempre tão cheiroso, como um botão colhido no orvalho da manhã. Entre flores e dores, peço que veja nestas palavras os ramalhetes que nunca lhe presenteei, e que sejam vingadas todas as feridas que não te deixaram desabrochar. Pétalas caídas não fazem ruído, mas, por favor, não deixe o teu silêncio despetalar a flor de amizade que ainda existe entre nós. Sei que esta roseira ainda demorará a vingar, mas um dia ela fará sombra para que muitas histórias como a nossa sejam contadas. Sim, sob a roseira da amizade, sob os espinhos do esquecimento, um dia sorriremos ao lembrar deste triste conto de amor. E nos obrigaremos a lembrar que o amor – Ah, o amor – o amor não é tudo. 

sábado, 21 de dezembro de 2013

O suplício do poeta


Naquele tempo, num tempo onde nem tudo que tinha teto poderia ser chamado de lar, eu há muito já havia deixado de ser poeta. Não que isso tenha sido uma absoluta tragédia, uma vez que também há muito eu já havia previsto, talvez propositalmente causado, esta inevitável despedida. Ora, pois o destino, ao contrário de Deus, tarda, mas não falha. É como eu costumava dizer: são tantas as tragédias que nos deixam sem palavras que, quando se percebe, já não há mais por que ou pelo quê proclamá-las. E desta vez, conformado ao silêncio, fui levado a conhecer uma dor que, como sugeria a ocasião, nenhuma das minhas mais eloquentes poesias seria capaz de retratar. Mas não se apiedem tão de pressa, meus caros, pois ao contrário do que se imagina, desta vez eu não venho me martirizar.
Foram dias intermináveis, daqueles em que parece transcorrer um século entre o nascer do sol e o anoitecer. E entre o por do sol e o amanhecer, uma vida inteira. Vinte e quatro horas eram suficientes para que revoluções, romances e guerras fossem travadas no meu peito encardido de ideais utópicos, assim como uma madrugada era suficiente para colocar todos esses ideais abaixo. Foram noites sem fim, admito, daquelas em que se começa bebendo e chorando, e se termina sendo comido e sorrindo. Pois na algazarra da cidade grande você aprende que um dia é do caçador e o outro, imaginem só, é do caçador também.
Naqueles dias matar ou morrer não eram antônimos, era um lema. Pois num mundo onde a vida era regida por ideologias tão retilíneas, viver tortuosamente deixara de ser motivo de represália e se tornara uma dádiva da qual poucos podiam se orgulhar. E como o orgulho é e sempre foi uma das minhas mais altas fortalezas, lá estava eu, torto como nenhuma prece, conselho ou oração jamais seria capaz de endireitar. Eu carregava meu troféu de injúrias como se fosse banhado a ouro, sem notar que ouro propriamente dito era a última das coisas que me banhavam. Pobre, sozinho e desalojado, meu último consolo foi me agarrar aos poucos sonhos que me restavam, como se sonhar botasse comida à mesa.
A fome que me assolou nos dias que se seguiram pouca ou nenhuma relação tinha com aquilo que eu engolia ou deixava de engolir, mas justamente com aquilo que eu regurgitava ou deixava de regurgitar. Eram tantos ranços, remorsos e fracassos amuados em meu estômago que dentre as minhas entranhas formou-se, perdoem a patética metáfora, um buraco negro. Tudo que eu botava para dentro, por mais lindo ou sublime que fosse, consumia-se e desaparecia com a mesma rapidez de um amor de verão.
E assim, entre amores veranis e paixões invernais, tudo o que é compreendido pelo verbo amar, assim como a minha poesia, extinguiu-se num outono de folhas e sonhos caídos. E as primaveras que outrora sonhei festejar, descobri por fim, eram apenas o prelúdio de um futuro que jamais floresceria. Foram esses desconsolos, céticos, tortuosos e orgulhosos, que me conduziram ao ser humano frágil e ferido em que me transformei, um interditador de esperanças, um colecionador de mágoas. E foi justamente nesta condenatória reflexão, nesta infeliz reposta, que percebi que, sobretudo, eu era uma pessoa indubitavelmente fadada à vitória.
Pois se ainda que no fundo do poço mais escuro fui capaz de emergir e escrever estas palavras, é por que algo ainda vive em mim. Deus? Muitos diriam que sim, mas eu prefiro acreditar que dentre todas as mazelas da humanidade, as poucas coisas boas que às vezes fazemos são mérito nosso. Quando digo que meu orgulho é minha maior força é por que me envaideço até mesmo das piores coisas que existem em mim, e isso me faz transpor qualquer espécie de ética ou moral estabelecida. Amar-me não me faz somente forte, como também me devolve o que por um descuido quase perdi: amar-me me faz poeta. 

terça-feira, 2 de julho de 2013

A saudade e o silêncio.



Vou sentir saudades – por repetidas vezes rascunhei esta verdade, até que hoje, por fim, a poesia que emana dos meus dedos canhotos compreendesse a saudade que deveras eu já havia sentido. Na finitude do que é interminável, permiti que a eternidade dos dias sem ti se arrastasse mórbida e vagarosamente, como se adiar o sofrimento o tornasse menos real. Tolice, tudo o que se adia não se despede: perpetua-se. Perpetuando o inevitável, na modorra do que evitei, resguardei minhas vaidosas palavras de queixume para o momento em que a inglória do meu amor fosse notícia de capa, transmitindo a singela mensagem que bem caberia numa nota de rodapé: “Vou sentir saudades.”.
Vou sentir, repeti com infantil teimosia, arremessando ao vento a bravata de um futuro que poderia estar ali, no meu próximo passo. Pouca ou nenhuma importância dediquei à coleção de tropeços que se arrastava em meu encalço, pois ainda que preso aos demônios do passado, sempre dei ao futuro um benigno voto de confiança, confiança esta que, depois de ti, dificilmente dedicarei a mais alguém. O futuro traiçoeiro, no entanto, traiu-me, cruel e implacável, soterrando minhas poesias de amor perfeito nos metafóricos escombros da desesperança. E a chorosa criança que um dia viveu dentro de mim, inócua e adormecida, recusou-se a derramar uma lágrima sequer, mergulhando-me na aridez do abandono, na desertidão do descaso, na sequidão do amor não correspondido. 
Ah, como dói ser criança num mundo onde ser adulto é ser forte, e onde a força não é cobrada como uma virtude, mas como uma lastimosa obrigação. São tantos os fardos que a única farda que me resta é a do luto, não pelo que morreu, mas pelo amor que mal chegou a ser vivido. E a saudade, inescrupulosa saudade, entoa hoje, silêncio após silêncio, as canções que foram tema do nosso repentino e afoito romance. Calado, por fim, martirizo-me na lembrança da voz que se entusiasmava mesmo ao falar de sonhos não realizados, de planos frustrados e apostas mal sucedidas. E agora, quem escuta seu coração insatisfeito? Quem ri das suas críticas? Quem segura o incessante tremor das tuas mãos?
Madrugada após madrugada você me visita em sonhos tão impalpáveis quanto a nossa curta história, pois mesmo que escrita reta por linhas tortas, talvez tenha encontrado seu dramático desfecho na retidão moral que tanto desprezo. Tortuosos foram os caminhos que me levaram, entre soluços reprimidos e pisadas em falso, de volta à triste realidade onde você não existe nem mesmo pra cantarolar lembranças, tampouco para me visitar em sonhos. Pois mesmo que seja maravilhoso imaginar um amanhã sem amores, é absolutamente monstruoso saber que você não fará parte dele.
Quantos amanhãs terei de amaldiçoar até que eu me livre da coleção de dolorosos ontens que carrego no peito? Temo pelo dia em os mistérios do que se foi o do que virá não me surtirão o menor interesse, e eu me torne apenas mais um poeta adormecido no limbo das dores que não me permiti sofrer. São tantas as interdições que encontrar portas abertas tem se tornado uma tarefa árdua demais pra mim, pois ainda que eu as encontre destrancadas, não passo de uma criança e não alcanço as fechaduras. E mesmo fedendo a fraldas, não sou mais tão inocente para bater e esperar que elas se abram. Ser criança não é só um fardo, admito, é um escudo também.
E assim, pé ante pé, tropeço ante tropeço, engatilhei rumo a uma maturidade nada bem vinda, que chegou sem convite ou aviso e foi se alojando feito um câncer no meu coração. Bem que havia rumores de que a idade fosse uma doença silenciosa, no entanto eu não imaginava que o próprio silêncio fosse o mais doloroso dos sintomas. São tantas as tragédias que nos deixam sem palavras que quando se percebe não há mais por que ou pelo quê proclama-las. Hoje entendo que, quando me olhava e não dizia nada, não eram palavras que faltavam, mas sim os silêncios que sobravam. As dores tatuadas em tua história são tão nítidas quanto as histórias tatuadas em sua pele, e o que me resta é me inconformar por não ter tido a chance de consolá-las. Desconsolo por desconsolo, eis o momento de chorar os meus, pois preciso que saiba que nem mesmo o mais estrondoso dos silêncios será capaz de abafar o meu último grito de amor: “Vou sentir saudades.”.  

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Jazigo da Virgindade



Meus dedos ligeiros falharam perante as palavras que minha doença sempre me impediu de escrever, e agora elas saltam pelos meus lábios prostitutos rasgando todo e qualquer selo do meu corpo aparentemente inocente.  Eles são mais fortes que eu, eu sei, tanto os selos quanto as palavras – elas são capazes de matar, eu ainda não. Meus poros seviciados fedendo, minhas células mais internas gemendo, meus ossos rangendo na excitação do instinto, sem que eu nem ao menos me sentisse culpado enquanto meus pensamentos mais escuros amaldiçoavam a ideia de um mundo diferente do meu, onde as crianças brincam e os adultos transam.
O que fiz da moral que meus pais me deixaram de herança? Sabe-se lá Deus. Quantas das bênçãos rogadas sobre mim desfaleceram ao ir de encontro à imundície do meu coração? Até mesmo Ele escondeu-me a face ao fazer tal conta. Orações mergulhadas no espírito santo e no catarro dos viciados escorrem pelas pernas da minha escrivaninha todas as vezes que me sento e despejo minha alma sobre o papel, mas elas não têm força suficiente para lavar meus versos satânicos e minha poesia de prazer exultante.
Prazer, arguto e caviloso prazer, a ti devo as honras de minha fervorosa existência. Ah, como é bonito pensar que a razão da vida se resume a lençóis melados e insultos cuspidos no ouvido, promessas lavradas na pele e segredos escondidos no ralo do banheiro. Bonito é o sol, o céu e o mar – eu mesmo sou lindo. Lindo como não convinha a uma mente tão sórdida, tão desprovida de amarras, ou tão amarrada ao desapego. Minha cabeça funciona de um modo singular quando o assunto é o amor, assim como minhas curvas são únicas quando se fala de sexo.
Muitos provaram do veludo que me acolchoa as entranhas e se apaixonaram perdidamente, dedicando-me lágrimas, promessas, dinheiro. O mundo a mercê do meu desejo, bastava um “sim” e tudo seria meu. Era, no entanto, uma troca injusta, pois bastava um beijo para que tudo que eu tenho lhes pertencesse. Meu corpo, cada curva, cada movimento eroticamente impecável, sedutoramente perfeito, tudo isso sem que uma jura de amor de fosse proclamada. Meu preço era pequeno demais num mundo demasiado oneroso.
Não se pede a um pássaro que ele mergulhe no mar e nem a um peixe que ele voe pelos céus, do mesmo modo em que não se cobra amor a uma prostituta. Mas ainda assim, se preciso for, ela se lançará ao céu e se afogará no mar em nome do seu amado. Hoje, nem céu nem mar apetecem minha desilusão, e eu me entrego de corpo nú, literalmente nú, à aspereza indecente da terra.  De pés no chão prossigo em meu caminho cujo fim é uma morte indolor e cheia de arrependimentos. De pés pro ar, pernas abertas e lábios molhados, prossigo em minha orgástica cavalgada cuja montaria sou eu e o cavalheiro é um a cada dia.  
É uma realidade infortunosa, admito, mas é com orgulho que levanto o estandarte da minha perdição. Ora, pois se não posso dela me livrar, dela me valho para dar sentido a esta minha vida tão vazia de significado e abarrotada de significações. Mesmo que gemidas ou sussurradas, me faz bem doar ao papel estas palavras tão duras, duras como é do meu agrado. O que seria de mim sem minha música, meus versos e minha poesia? Pois mesmo que hediondas ou diabólicas, trazem a tona o que eu tenho mais angelical. Peço que não me condenem mais do que eu mesmo o faço, pois até mesmo um escravo da carne é capaz de sentir o virgem sabor da fruta. E enquanto a virgindade jaz num passado distante, ponho os olhos no presente e já espreito a próxima vítima do meu insaciável ciclo de amor. Talvez seja você, será que tens coragem? 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Súmula às três da madrugada



O barulho dos cães latindo de madrugada nunca me serviu de alerta. Fora sempre como um ladrar da esperança, anunciando que mais uma manhã se avizinhava e que meu auspício de fim dos dias era, como de costume, somente um auspício. Por outro lado, o silêncio ronronante dos vira-latas vigilantes nunca me fora sinônimo de calmaria, até o dia em que o fantasma do seu passado pulou o muro dos meus pesadelos e invadiu minha casa.
Era uma noite quente como o semiárido sertanejo jamais conheceu, e dentre as partículas de poeira que pairavam no ar meramente respirável vinha um cheiro de malícia muito parecido com aquele que conheci no teu quarto, naquele inocente antro de adultérios e promessas vazias. Eu estava na janela quando tudo aconteceu, respirando a poluição alucinógena dessa cidade tão sóbria e olhando por cima dos telhados, imaginando quantos deles abrigavam corpos nus embevecidos pelo mesmo vício caviloso cuja overdose não teve a competência de matar nós dois por inteiro.
Seria tão bonito, não? Se ao provar de teu veneno leitoso nosso amor falecesse num último beijo apaixonado. Mas sempre que nossos lábios se separam há uma maldita e torturante promessa de reencontro. E lá estava você fazendo jus ao nosso infortúnio, sua inconfundível silhueta recortada sob os tijolos mal assentados da minha casa, fitando-me de rosto orvalhado não sei se de sereno ou se talvez de suor. E estava lindo, não como de costume, mas como eu sempre me acostumei a imaginar.
Trazia no olhar aquele convite para aventuras e nas mãos uma flor, uma aliança que não era comigo e a tremedeira típica de um covarde mascarado pelo instinto. Ah, como era desprezível. Talvez não tanto quanto eu, admito, mas ao menos tive a decência de ser autêntico na minha podridão moral. Quantos de teus princípios são postos à prova quando engendra teu corpo dentro do meu? Muitos, eu sei. Meu consolo é imaginar-te na penitência eterna de um amor velado pela covardia e por uma sensatez que te cai como uma luva. Sim, como uma luva, mas é com as mãos despidas que você vibra ao tocar meu despudor.
Não passou de um relance. Por um momento desviei os olhos para algum farol piscando ao longe e quando retornei você já havia desaparecido, naturalmente. Não que eu não desejasse mais que alguns segundos em sua companhia, mas já abandonei a ingenuidade de esperar que esteja ao meu alcance sempre que eu abrir os olhos. Este tempo bonito se foi, hoje você pertence ao mundo dos casais felizes do qual há tempos me exilei e jamais encontrei o caminho de volta. Sua existência hoje se resume em cartas de amor, vislumbres soturnos durante a noite e à alucinações inspiradas por coisas triviais como cães ladrando, dias amanhecendo ou sereno caindo.
Quantas madrugadas hão de ser declamadas antes que eu mergulhe no imbróglio de outro amor? Muitas, eu sei. Mas a busca por palavras que as descrevem tem se tornado uma tarefa árdua demais para mim, cansativa demais, estúpida demais. E antes que a poesia me consuma e me transforme num mal-amado movido por metáforas e alimentado por mais predicados do que sujeitos, hei de dar ao mundo aquilo que tenho de maior a valia. Busquei então no meu testamento o registro de meu oneroso tesouro e as únicas coisas que encontrei foram canetas gastas, cuecas frouxas e uma embalagem de chocolate esquecidos no fundo da gaveta mais escura. Com as canetas escrevi estas palavras. As cuecas usei para secar as lágrimas. A embalagem guardei no caderno como teu último presente. E seu conteúdo, ah, dei de comer aos cachorros que não paravam de latir. 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Lágrimas de Glicerina




Lembro de te ouvir dizer que logo viria me visitar. Depois de tua partida, no entanto, um milhão de pessoas bateram à minha porta e nenhuma delas era você. A casa sempre aberta, a mesa forrada, um vaso de flores mais secas do que murchas, um prato de comida azeda te esperando com os talheres lustrosos e uma garrafa barata de um vinho qualquer. As velas, já de todo derretidas, pintalgando o florido da toalha com suas lágrimas de glicerina, lágrimas tão duras quanto as minhas, tão foscas quanto meu coração. E o meu sorriso comportado não passava de um vulgo detalhe que compunha a decoração, tão artificial quanto tudo o que me rodeava.
É tão humilhante admitir que  não vali o preço da loucura, e imaginar a gratuidade da razão pintando um retrato de casal feliz em que eu não apareço. Talvez eu esteja por de trás da câmera focalizando e enquadrando sua sóbria felicidade, invejando-a, praguejando-a. Ou, quem sabe, eu seja um vulto escondido atrás do seu sorriso, uma escuridão esquecida no fundo dos seus olhos risonhos, fazendo-os enxergar as marcas do abandono tatuadas no meu peito nu. Resta-me agonizar dia após dia no resvalo do meu amor egoísta, pois os ismos que hoje me movem nunca foram capazes de me fazer lutar por alguém que não fosse eu.
De que me importa sua alegria se ela se esconde numa redoma de vidro blindado num altar de glórias cujas minhas orações não alcançam? Nada, menos que o nada ou talvez mais que tudo. A vontade que tenho de jogar meu rancor na tua cara, te chamar de covarde e te fazer chorar é tão grande quanto a vontade que tenho de te roubar para mim, te trazer pra casa e cuidar de você como eu nunca cuidei. Cuidar como meu orgulho sempre impediu. E mais uma vez a maldição do atraso, ou de uma mente precipitada demais, desgraçou-se inquebrável sobre os sonhos que eu talvez nunca realize.
Parágrafos e versos ecoam a cada lágrima que cai, e é tão inútil, é tudo tão inútil, como se me ridicularizar a preço de suplícios apaixonados me tornasse merecedor de coisas que há tempos perdi. Onde está em mim a sensatez que te fez partir? Onde está em ti a insanidade que me fez ficar? E as perguntas vão e voltam como sempre: cheias de poesia, mas sem a serventia de uma resposta que me valha o preço do pranto.  Ah, como é patético! E imaginar que o futuro me reserva tantos amores, tantas dores e tantas lágrimas que cairão, evaporarão e virarão lembranças como a que sou agora.
Há no mundo maior desgraça que a de ser reduzido à lembrança? Quando pequeno ouvia os adultos dizerem que quando uma pessoa morre e parte desta terra, se transforma em estrela do céu, para que a cada alma que se vai o mundo fique menos escuro. É mentira! Não viramos estrela, santo, anjo, espírito ou demônio. Nos tornamos lembrança e é por isso que tememos a morte. Perder a vida, tudo bem. Se tornar uma mera lembrança, jamais. Imagine você, então, o quanto dói ser desfeito em memória quando ainda em vida e não ter ao menos o consolo da morte para me afagar na inexistência. Maldita seja a indignidade da morte, que deixa seu rastro de sangue pelas nações, mas nunca chega a meu encalço.
Quantas eternidades terei de esperar até que você se torne somente um resvalo da memória e parta para a terra dos amores que morrem antes de inspirar poesia? É tão bonito quando não é com a gente, não é? E sem obter respostas me contento em lançar perguntas ao vento e deixar que a brisa me traga as sobras que o destino guardou para mim: o frio, a fuligem e o seu cheiro perdido na distância. Como é maravilhosa a promessa de um amanhã sem amores, e como é monstruoso saber que você não fará parte dele. Como é sublime a ideia de um coração indolor, e como é ao mesmo tempo vazia.
Odisseias e pentateucos despaginados serão escritos e adorados antes que eu me perdoe por não ter te amado quando tive a chance de amar, e minhas lereias prolixas hão de emocionar muitas almas antes que você tenha a decência de derramar sequer uma lágrima por mim. Lágrimas de glicerina, que sejam, duras e leitosas como é do meu agrado. Mas pedir que eu vire as costas e vá viver outro amor é demais para mim. Inúmeras vezes à beira da cama, silvando outros nomes, beijando outros corpos, recordei com remorso de seus dedos macios tocando meus prazeres seviciados, convencendo-me de escrúpulos que não me pertenciam. Permiti que burlassem as leis do meu universo imoral, e descobri que carregava nobreza demais para que eu pudesse suportar.
Não obstante, meu apelo sôfrego mal teve a chance de alcançar seus ouvidos bondosos e te dar a chance de pensar em mim outra vez. Agora meu universo sem forma se estende ao meu redor como um lamaçal de fracassos, ora paradisíaco, ora bestial, nem bom e nem mau, sem destino ou ponto de partida. Tais alucinações, obviamente, aludem-se somente no avesso dos meus olhos desfocados, pois em minha casa, sobre minha mesa posta, há somente um sorriso comportado compondo a decoração da forma mais plastificada que um ser humano poderia assumir. Humano, eu? Imagine só! Muito menos que isso, talvez como os vermes que decompõe o prato de comida embolorado em cima da mesa. Se o cheiro da podridão emana do prato, do vinho choco ou de meu peito chagado, eu não sei, mas a porta de trás já está destrancada. Estou te esperando, vê se não vai demorar. 

domingo, 16 de setembro de 2012

Gargalo



Ei, garçom
Dê-me uma dose de lágrimas
Daquelas bem caprichadas
Choradas por um amor que morreu

Traga também um isqueiro
E um palheiro pra tragar os sonhos
Um saleiro pra salgar a alma
Que o pranto dessalificou

Traga também o bilhete
Que o moço bonito nunca me escreveu
E diga a ele que eu aceito
O seu pedido de casamento

Diga ao dono do bar
Que hoje eu mesma fecho as portas
Coloco o lixo pra fora
E vou com ele quando o caminhão passar

Chame aquele mendigo
Dê a ele os meus sapatos novos
Para ele caminhar meus passos
E deixar a sarjeta pra mim

Peça àquela senhora
Que fala da vida do povo
Que venha me falar da minha
Pois de minha história eu esqueci

Traga também outro copo
Sente-se e beba comigo
E chore para eu ter a certeza
Que meu sofrimento é maior que o teu

Por favor, desligue a vitrola
Todas as músicas me fazem lembrar
Do homem que deixou de cantar
Juras de amor por mim

Faça-me uma cortesia
Um gracejo, um beijo, sei lá
Apenas me faça acreditar
Que eu ainda sou moça bonita

Venha, aceite a gorjeta
Não é muito coisa, eu sei
Mas assim como meu despudor
É concedida de boa vontade

Espie, meu copo secou
As cinzas se esfriaram todas
Acho que é hora de voltar pra casa
Tenho outras lágrimas pra engarrafar.