quinta-feira, 13 de junho de 2019

Procura-se Um Novo Amor



Procura-se um novo amor. Um amor que me faça esquecer todos os amores que amei na vida. Um amor que arranque as memórias daquele sorriso encavalado de menina inocente, daquele beijo de garoto com gosto de pasta de dente, saquele sexo demoníaco com sotaque da máfia italiana, daquelas tatuagens coloridas nos braços de um gigante, daquele fascínio transviado pelo talento de uma drag queen, daqueles olhos de gude com cílios arquitetônicos, daquele cheiro de homem que trabalhou o dia inteiro e que me fez sonhar com uma vida inteira... Agora eu preciso de um novo amor, para arrefecer a dor de um novo recomeço. 

Muitos casais labutam contra a crise dos sete anos. Eu, ainda sozinho, confronto a crise dos sete amores. Sete vezes amei, sete vezes sofri, sete vezes me despedi. "Quem há de ser o oitavo?!", questiono aos matemáticos do Destino, na esperança de que o número 8 venha acompanhado de seu significado infinito. Peço aos sete que amei, que invoquem nesta hora uma egrégora de amor e rezem por mim, para que meu próximo suspiro seja a última e derradeira respiração, para que o coração acelere na direção exata, para que os olhos enxerguem o espírito por trás das janelas da alma, para que as mãos se juntem não como uma aliança, mas como uma prece.

Meu novo amor é uma tamanha incógnita que eu não sei dizer se será homem, mulher ou um terceiro sexo vindo de uma galáxia distante. Terá quantos centímetros de altura, será um paquiderme ou um gnomo? Quantos anos de idade, décadas ou milênios? Meu novo amor virá montado num cavalo branco ou nas costas de uma quimera apocalíptica? Será ardente como um vulcão neolítico ou calmo como uma montanha no Nepal? Meu novo amor terá nome simples ou composto, João da Silva ou Rei Agamenon Terceiro da Estrela mais Bilhante de Andrômeda? Quem há de ser o oitavo...

Oito avos de uma eternidade indivisível se revezam no protagonismo das minhas lembraças: sete traumas e uma esperança. É engraçado como nossos novos amores são respectivamente uma soma do que deixamos de aprender com os anteriores. Primeiro amei uma garota, com quem aprendi que não era daquilo que eu gostava. Depois amei um menino, com quem aprendi que aquela apaixonite era só a infância de uma odisséia. Então amei um jovem adulto poliglota e bissexual, com quem aprendi que sexo não é amor e que palavras não são leis. Em seguida me apaixonei perdidamente na primeira noite para aprender que entrega e devoção não são sinônimos de resultado e santidade. Resultante dessas infelizes lições, amei um irmão, talvez uma irmã, para aprender que, apesar de já ter entendido que o sexo não é amor, o amor também não é tudo. Então me casei! Ele era arquiteto. Era, não: ainda é. É engraçado como falamos dos nossos amores como se eles estivessem mortos... Descrobri que quem casa quer casa, para aprender que o amor, apesar de imortal, não é imutável e os lares também não são. Me mudei, e nesta nova cidade conheci meu último amor. Ao sétimo, dedicarei um parágrafo.

O que dizer de um amor que foi uma prova? Não me delongarei em declarações e memórias, afinal de contas, eu não passei. Bombei, cabulei e não me recuperei. A crise dos sete amores é, sem dúvida, um castigo e uma dádiva, com a qual tive a chance de provar o aprendizado de uma vida e aprender o valor da morte inevitável. Falhei, mas aprendi. A morte é a mais absoluta de todas as verdades! Como é irônico que ela seja assombrada por tantas mentiras. Com meu último amor descobri que de nada adianta o aprendizado se ele não for colocado à mesa todas as manhãs - e todas as noites - como uma refeição quente e imperecível que alimenta a boca da eternidade. Dos mesmos lábios que dizem "eu te amo" não devem sair meias verdades. 

Agora, falo diretamente a você, meu próximo amor. Primeiro, quero fazer uma confissão: preciso de você! Ainda não evoluí ao ponto de me bastar sozinho. Ainda não aprendi a conviver comigo mesmo... Não que eu não seja uma boa companhia, mas ainda tenho tanto, tanto, tanto dentro de mim que eu preciso dividir com alguém. Ultimamente tenho dividido com mundo sem pedir nada em troca e também não esperarei nada de você. Costumo esperar das pessoas apenas o que elas estão dispostas a oferecer. Não faço barganha, quero apenas um espelho sem rachaduras por onde eu possa olhar meu reflexo sem que o meu amor refleta aos oito ventos. Quero uma brisa mansa com cheiro de eternidade, por onde as pétalas da amizade possam revoar sem se preocupar com bem-me-quer-mal-me-quer.

Meu oitavo amor há de ser de uma flor de lótus, um crisântemo fúnebre cuja cada pétala remonte uma homenagem a um ancestral de um passado aquém ou a um sideral de um futuro além. Não seremos duas metades da laranja, mas duas metades de uma coroa, e o fruto de nossa união serão desconhecidos aos sabores desse mundo. Ao fim do nosso reinado não restará pedra sobre pedra. Nosso castelo será firmado nas areias do tempo, onde os templos e as casas não dismoronarão. Dissolver-se-ão! Feito partículas, viajaremos na nave da última diáspora, onde nos reintegraremos e viveremos em comunhão com meus outros sete amores e todos os outros amores que já floresceram na face da Terra. E que fique gravado para a indômita posteridade: Só o Amor salva. 


Marcos Paulo Moreira