segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vala


Vislumbro na noite descortinada
As sombras dos meus sorrisos desconseguidos
As cores indolores das lágrimas desbaratadas
Descolorindo o verde de teus olhos desapaixonados
Cobrindo valas que nunca foram descobertas
Descobrindo amores onde nunca houve coração
Desbaratando versos onde nunca houve música
E dizendo “eu te amo” onde nunca houve poesia

terça-feira, 3 de abril de 2012

Pálpebras que Dormem


Foi tão difícil acreditar que era verdade. E, afinal, não era. Cada um dos sorrisos que esbocei agora se perpetua nas recrudescências da memória humana, somente como uma lembrança baça, triste e insistente. É difícil admitir o quão fraco é o coração, e o quão facilmente ele se esconde na máscara da força. O que poucos sabem, entrementes, é que máscaras não caem nunca, no entanto são quebradiças, e seus cacos são pontiagudos.
Engessado, trincado, porém inteiro, o caviloso coração que repulsa e impulsa meu sangue vermelho não deixou, nem mesmo por um instante, de exercer sua laboriosa função: manter-me vivo, quente e apaixonado. De cada uma de suas câmaras constritivas ouvia-se um silvo agudo, audível somente aos ouvidos mais apurados, que gritava como que anunciando, “Há amor aqui!”. Sua escuta, por sua vez, fez-se surda e impiedosa, mas era tua mudez que ostentava a crueldade maior.
Verso por verso, o seu silêncio sussurrou um poema de adeus ao meu ouvido, melancólico, impassível e declamativo. Mas eu não chorei, não me permiti, e guardei minhas lágrimas pra depois, para banhar heróis de uma odisseia que seja verdadeira. A verdade, por sua vez, inexiste. Cada uma dessas palavras de desconsolo está firmada em suposições burras e infantis, provenientes de um garoto burro e infantil, acometido por um sentimento burro e infantil.
Ah, o amor. Quando de ti já fez morada em meu peito? E quanto de ti ouviu tal ordem de despejo? E quanto de mim ainda é bem vindo em sua mesa? Perguntas, capciosas perguntas. Como se respostas fossem capazes de proporcionar tal alento, ao menos uma trégua. Tal poder, e você sabe, pertence somente à sua voz, em cada sílaba arrastada, em cada vez que sua boca macia acaricia o som do meu nome.  
Maldito seja o nome, marcado a fogo e ferida, no avesso dos meus olhos. Benditas sejam as mãos, encrustadas em calo e calor, transfixando minha pele branca. Pois indizíveis são os olhos, grumados em esperança e malícia, que vigilam com a displicência do cegos, mas que enxergam com as sutilezas do espírito. Pois mais triste que o fulgor do mortos, somente imaginar a traição dos seus olhos pestaneados. Globos de vidro, verdes de veneno. Cílios espigados, dourados de nobreza. Pestanas de cansaço, plácidas e desjuvenecidas. Lindos, fortes e distantes. Insípidas . Inóspitas. Incólumes. Pálpebras que dormem. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

O Pantomimeiro


Despertei. De uma noite cujo sonho não me lembro, lavando os olhos com águas felicitadas, sonolentas, remeladas e embebecidas de amor. Carregava nas pálpebras, fundas, maquiadas e escurecidas, a vaidade viçosa da idade dos príncipes e o peso modorrento da servidão dos parvos, dos bobos oriundos das cocheiras fétidas que ora crescem, ora se reinventam, a fim de lograr-se nas gargalhadas e lágrimas da realeza. Real era, pois, o sangue que lhe engarrafava o trânsito das veias, saudavelmente batizado com cachaça e uma boa dose das indecências hormonais, naturalmente, como é de praxe para um rapaz tão moço.
O parvo troçador era eu, admito. Já o rapazote, há tempos abandonado fora nas recrudescências da memória humana, deixando que somente a troça, a cachaça e a indecência ponderassem sobre meu espírito ancião, dicotomicamente encarnado neste corpo tão faceiro, tão juvenil. Ardiloso, na ponta dos pés, como fazem os bailarinos, puleguei então de coração em coração na busca por aquele que capacitado fosse de sustentar o meu balé banhado em volúpia, fazendo de cada pulsação cardíaca uma batida do melodioso trinado da suposta paixão, visualizando em cada um deles um ilutópico tablado de ripas vermelhas, um palco imaculado encerrado por cortinas escarlates cheias de promessas, sobre os quais eu estrelaria, lindo e resplandecente.   
Sob a sinuosidade dos meus pés, porém, os corações se desfaleceram revelando as valas escurecidas que por verdade eram, não um palco, mas calabouços sem fundo nos quais caí e me feri mortalmente. Gangrenadas, por fim, as feridas se tornaram troféus cujas sombras me faziam ora abrigo, ora cárcere, impedindo que as luzes do teatro me alumiassem outra vez. Cansado estava eu de ser um personagem cujo desfecho era uma farsa, um bufão. Temia outra vez submeter-me marionético nas mãos de um mimetista e, depois que a cortina se fechasse, ser embolado e largado na coxia mais escura. Minhas sapatilhas foram guardadas. Minhas maquiagens foram lavadas. Meus instrumentos desafinaram e enferrujaram. E eu me tornei duro, pálido, silencioso e sem sorrisos.
Eis que um dia, no entanto, o destino traiçoeiro me suspende pelas costas, como que num ventríloquo de realejo, materializando em minha frente a malícia dilaceradora de um par de olhos verde-vivos, coloridos pela esperança que a tempos me abandonara. E foram estes mesmos olhos que, mesmo sem tinta, música ou poesia, conseguiram enxergar no fundo do meu olhar desentristecido a máscara do palhaço, acintosamente desenhada, marcada a fogo e aplauso nas janelas da alma que preenche a ressonância oca do meu peito. Preenchidos foram todos os desejos e fissuras do meu corpo, pois as valas escuras não mais careciam de preenchimento, foram todas esquecidas, recrudescentes e imemoráveis.
Pois as memórias que hoje me visitam, espetaculosas, são as daquelas noites em que trocei sorrisos e juras naqueles olhos admiradores, deliciando-me integralmente nas mãos de um autêntico apreciador. Deixei, e sempre deixarei, que se faça espectador de minhas mágicas e sortilégios, que seja sempre o enamorado de minhas poesias e falácias declamativas, e que, lado a lado, ensaiemos juntos, sempre juntos, objetivando a perfeição inalcançável, mas que seja um inalcançável alcançado nos sorrisos um do outro, em cada um dos versos que hão de ser silenciados por beijos novelísticos. Para que a maquiagem nunca derreta, para que a música nunca se cale, para que a cortina nunca se feche. Pois o alimento do artista é o aplauso, mas nunca, em tempo ou lugar algum, outras mãos me aplaudiram tão vigorosamente como as tuas. 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Verbosidade Esverdeada


É engraçado. Às vezes, na verdade muitas vezes, parece que eu me esqueço de olhar para o céu. Deveria, se não para orar ou agradecer, ao menos para me certificar de sua existência ou para averiguar se, por ventura, assim como no meu esquecimento, ele tenha talvez se esquecido de amanhecer azul. Mas a aura anilada e anilhaçada do universo continua sempre pairando sobre a cabeça dos amnésicos, como eu, inspirando as apaixonadas poesias, como as minhas, e toldando as carícias das provenientes paixões, como a nossa.
É sempre tão azul, como se para enfatizar a verbosidade esverdeada dos teus olhos, dois gudes esmeraldinos perscrutando até a última doçura do mel que colore o meu olhar, escandindo cada uma das mentiras que nunca foram proclamadas. Ora, pois somente a verdade reinou entre nós, magnífica, imperando como uma rainha singela e inexpugnável. Já que é sempre tão verde, de um verde tão vigoroso, que carrega em seus vislumbres a experiência das rameiras do norte e as jovialidades das parreiras do sul. Ao leste e ao oeste, porém, era o vigor dos teus braços que me envolvia, laço arrebatador cujo nó era acintosamente tecido por fiapos de noite, tingido pelas várzeas fálicas do desejo e descosido pela agulha intumescida da paixão.
Apaixonado foi o intumescimento primeiro, uno e derradeiro, proferindo junto aos meus gemidos juras de amor que jamais hão de ser conspurcadas. Conspurcado foi intento ardiloso que de boa vontade me fez possuído pela rudeza dos seus dedos calejados e aquecidos, como é do meu agrado. E então, sentado, fiz do teu colo dominador o meu trono, minha cela de estribos invisíveis e indizíveis, me levando a galope até a planície mais sublime do seu coração, esmiuçando cada gota viscosa do seu inócuo prazer.
Já o meu, digo, o coração, alucinou-se ao testemunhar o quão linda e providentemente as sucessões foram se sucedendo, cada coisa ao seu devido e indevido tempo, naturalmente, como uma flor que desabrocha desesperada, no entanto sem pressa. Tenro como só o amor sabe ser, apreciando o valor de cada olhar, de cada suspiro e de cada cor. O azul eterno do céu estrelado, a ênfase esverdeada dos olhos aguados, o arroxeado dos lábios beijados, a brancura indecente da pele e a transparência do suor orvalhado pelos nossos corpos desnudos, umidificando as vistas e embaçando as janelas.
E as janelas, traiçoeiras, mostraram-me de um ângulo inconcusso a resplandescência enegrecida de um céu que por vezes me esqueci de olhar, tão plácido, tão faceiro. Um céu cujo horizonte não me era visível, pois nas na fronteira do meu olhar pensativo só se vislumbrava seu nome. E as estrelas e a lua, outrora tão abandonadas, ganharam hoje em meu peito uma nova significação, por que agora eu tenho, quando olhar para elas, alguém em quem pensar e lembrar. E fazer que essa lembrança transcenda as fronteiras da distância, para que eu seja sempre seu e você seja sempre meu, até o nosso sempre durar. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Falácia do Eunuco


Eu me lembro de quando as mulheres
Ainda versavam minha pobre rima
Pois hoje em repugno aos lábios de baixo
Dispenso os beijos dos lábios de cima

Ora, por mais que os ventres do Éden oriundos
Fizeram-me um dia caviloso prisioneiro
Não me sucedo às várzeas da fenda tão fecunda
Pois nunca fui cativo que honrasse o cativeiro

Confesso, já provei a doçura da carícia alilasada
Mas somente o suor, sal irídio do oceano
Tal como a aspereza da areia marejada
Detêm o calor que me arrefece
Outrora intumesce
Meu corpo insano
Pobre falo diocesano
E esta ferida arroxeada

Sim, eu já me deitei com elas
Mas a cama d’eles me foi mais convidativa
Tal como uma donzela
Abri-me à falácia da goela
 Como se aquela
Sinuosa e esquiva
Moça inepciosa, tão bela
Possuísse-me, impugnativa

Festejo pelas núpcias
Que nunca serão consumadas
Das ancas, ao contrário das minhas, tão súcias
 Inexpugnavelmente seladas

Seladas foram quaisquer possiblidade de abrasão
Que me alcance por afeminado intento
Deflorados já foram meus selos pelo alazão
Que me conspurcara num fraquejo tão sedento

Valha-me, clitóris que uma só vez me aninhou
No primogênito e inócuo rebento
Socorrido no conspurco aqueijoado
Por másculas mãos afagando meu alento

Alenta-me, então, mãos de mulher
Como boas amigas, companheiras de caça
Pois se o desejo por ti ainda me convier
Juro, cairei em desgraça

sexta-feira, 2 de março de 2012

Brisa ao crepúsculo



Um dia, sentado na varanda, talvez no ontem, talvez no amanhã, ouvia eu uma música melodiosa que trovava histórias de um inesquecível mundo de lá. Embevecido, observei de olhos aguados as verdades trazidas pela brisa ao crepúsculo, singela ventania que afagava as folhas das árvores que na época cresciam na porta de minha casa, fazendo-as dançar como o lenço de uma donzela em despedida.
Aquela música, assim como outra qualquer, me trazia lembranças suas, ora, pois mesmo morto eras tu para mim a única memória viva. E as trocistas histórias de um mundo de lá eram por verdade os indizíveis causos de um mundo seu, fabulosos sortilégios de um mundo seu,  cujo meus pés pisaram o chão um dia, porém, não mais. Nunca mais.
Agora, pois, ouço em cada nota o tilintar de uma lágrima que se quebra, e em cada verso escuto as promessas vazias advindas de vozes ininteligíveis, aliás, de bocas e lábios ininteligíveis, inexistentes e distantes como as vozes d’Ele ou d’Outro qualquer. E, como que por consolo, ou talvez para me escarnecer, vislumbro agora em cada folha que balança uma mão calejada dançando a valsa do adeus.
Tristeza maior se solida quando o vento freia e a música silencia. E as folhas bailarinas, então, jazem inertes, mortas, afrontando as metáforas que outrora proclamei. O silêncio, por sua vez, faz-se ainda capaz de carregar os ecos daquela doce canção, sim, pois somente o silêncio tem a voz cujo todo ouvido é capaz de ouvir.
É tão estranho, pois não? Flagrar-me sentado à porta de casa, envolto por uma calmaria que parece não me pertencer. Vento e música, nem mesmo na ternura dos sonhos eles têm o costume de me visitar. É tão engraçado, talvez assustador, perceber que as árvores cresceram sem que eu as regasse, que os verões e invernos passaram sem que eu os festejasse, que as pessoas cresceram e envelheceram sem que eu ao menos as amasse.
É complicado. Não sei se fui que ousei ultrapassar as barreiras do tempo ou sei foram os relógios que me abandonaram nas revalescências do passado. O pouco que sei é que, agora que você se foi, nem à minha frente nem às minhas costas existe alguém a quem gritar por ajuda. Dentro de mim, talvez, ainda haja, mas o talvez nunca me fora uma palavra que soasse convidativa. Acima de mim, a inexistência de Deus. Abaixo, todo o resto. À direita e à esquerda, aqueles por quem ainda tenho apreço. E nas ilusórias fronteiras dentre essas dimensões, meus sonhos e minhas poesias, todas dedicadas a ti, imbatíveis e inomináveis.
Inominável é o vazio que assola meu peito, me fazendo proferir palavras que não convinham ser lidas por olhos humanos. Temo feri-los. Temo abri-los. As feridas, porém, gangrenam-se trazendo à tona o cheiro da desgraça, invalidando as vistas e reavivando o coração. Ora, pois somente a dor é capaz de autenticar a vermelhidão da carne e provar que não existem brisas crepusculares correndo pelas artérias e resfolegando pelo coração. Só mente o sangue prova a existência da vida, assim como somente uma ferida pode revelar o que um homem é por dentro. No entanto, são poucos os que sabem que ainda mais doloroso que sanar uma ferida é sobreviver a ela. Pois pior que um cão que ladra, mas não morde é um cão que morde, mas não mata. Mais triste que o amor que sinto por ti é saber que sobreviverei a ele.
Sei que nem a música nem a brisa e nem a poesia detém o poder de fechar tais feridas, mas as lágrimas por elas provocadas talvez o tenham, talvez o façam. Sentar à varanda e contemplar o balé das árvores não me trará descanso, mas ao menos sei que a morte também não o trará. Culpar a Deus ou acusar o tempo não me fará justiça, mas a justiça além de cega também é surda, possivelmente muda, portanto me deixem praguejar em paz.
Quero apenas ser humano, louco, hipócrita e apaixonado. Ferir e ser ferido, amar e não ser amado, ser amado e não e amar, e em algumas poucas vezes me deliciar na sombra da reciprocidade. Quero jurar amores que findarão antes que o sol amanheça, assim como quero amanhecer sem ter que jurar o meu amor. Quero ser igual sem ter que lutar por igualdade, e na maldição da liberdade me fazer superior. Nada sou, ninguém é, e assim me vejo no direito de ser o que ou como quiser. Pois pouco importa a casa onde você mora, a textura do seu cabelo ou a cor da sua pele: dentro do peito o coração é vermelho, e as entranhas fedem. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Águas de Profanação


O primeiro verso é sempre o mais difícil. Assim como uma lágrima que teima em se pendurar nas pálpebras o primeiro verso sempre se agarra insistente na ponta dos dedos, recusando-se a fazer verbo da carne que intumesce meu coração. Quando padece a teimosia, porém, observam-se lágrimas que jorram da ponta da caneta para o papel, e também versos que escorrem dos olhos para a ponta do queixo e, depois, para o peito ou para o chão. Que descuido.
Lágrimas e versos não devem ser desperdiçados, é sabido. Foi um tarado num sonho que uma vez me ensinara e eu nunca me esqueci. Ora, pois um tarado nunca deve ser contradito, eles sabem das coisas. Não convém que lágrimas sejam derramadas para regar a terra, assim como versos não devem ser proferidos em louvor aos céus, dissera ele. No entanto a teimosia novamente se fez soberana e a terra continuou encharcada e o céu continuou resplandecido. Uma lástima, justa de minhas palavras de queixume.
Queixo-me pelas lágrimas nunca derramadas, pelas poesias nunca declamadas e pelas nádegas nunca defloradas. Pobre daqueles que conservam as pregas do cu, tão fechadas e inflexíveis quanto suas cabeças condicionadas, e tão imundas quanto seus corações. Rezo pelos que nunca sentiram na face o sabor e cheiro da porra, e que carregam à sombra do nariz bigodes grisalhos penteados pelos dedos mansos da moral e dos bons costumes. Lamento todas as noites pelos homens de espírito aberto e de corpo fechado, de mentes lacradas e olhos arregalados. Lamento sim, em altos brados inclusive: gemendo.
Lágrimas ao léu? Inaceitável! Versos ao relento? Inconcebível! Mas e quanto às várzeas da masturbação e aos respingos de suor e saliva? Que transbordem pelas ancas e pelos traseiros dos poetas e dos choramingões! Minhas perguntas foram claras, mas as respostas foram leitosas como só as palavras de um tarado poderiam ser.  Lembro-me daquele sonho assim como me lembro de cada uma das camas sobre as quais me deitei, de cada companheiro e de cada baixaria sussurrada em meu ouvido. Pois sussurrados devem ser os ensinamentos de maior valia, para que somente mestre e pupilo possam ouvir.
Estas sim, as baixarias, é que devem ser versadas em poesia e orvalhadas em lágrimas, águas de profanação.  Pois o último verso é sempre o mais fácil e o mais bonito. É como o amém de uma oração fervorosa, ou como o ultimo gemido tântrico de uma noite de verão. O último é aquele que ecoa por mais tempo, é o que alcança o maior número de ouvidos, o que pinga um ponto final numa história onde não há desfecho. É como gozar, é trivial. Ora, pois, como de costume, o melhor é guardado para o final. 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

É proibido pisar nos sonhos


É proibido pisar nos sonhos. Uma vez eu li esta frase bonita, acintosamente grafada na cabeceira de uma das camas sobre as quais me deitei e gemi. Não me recordo qual, tampouco me lembro com quem. Fulgurantes, palavra por palavra dançaram na frente dos meus olhos, gradualmente se formando em verso, exalando poesia. E uma tristeza inexorável, daquelas que quando surgem ignoram todo e qualquer outro auspício, tomou conta do meu peito, transcendendo as paredes da respiração. Sufocado, então, calei-me, deixando apenas que as palavras, feito lágrimas, rastejassem pelas pautas de um papel empalidecido, tão claro e vazio quanto meu coração, vermelho e mortiço como uma campina depois da batalha.
A batalha, porém, travou-se não numa campina, mas por sobre fronhas e lençóis perfumados. Pois perfumada é a dor que se anui em meu peito, que carimba um cheiro doce toda vez que me perpassa, perpetuando-se numa tintura incolor que nem mesmo o álcool pôde lavar. Entrementes, foi submetido aos langores de um bom vinho que meu corpo se abriu aos intentos do vigor, embevecido de prazer, rendido aos braços ilutópicos da fornicação. Felicitado, como que num milagre, flagrei-me de quando em quando sorrindo feito a criança que eu nunca fui, bravateando uma inocência que jamais me pertencera.
Eis que surge ao meu redor o pendor da consciência, que me obriga a relembrar que estes instantes de iluminação não são duradouros e que essa fábula de alegria não é perene, dita que essa alegria é de fato autêntica, porém não me pertence. É justamente aí, no poder tocar sem poder levar, no poder dormir sem poder sonhar, que se consiste o sofrimento, ora, perfumado sofrimento. Dói sorrir e não ser sorridente, estar alegre e não ser feliz, estar aqui e pertencer a outro acolá. É como visitar o paraíso, mas não poder viver por lá, tornar ao caminho que leva ao inferno e fazer dele minha casa. Só que o conformismo, é notório dizer, nunca foi uma dádiva que me apetecesse.
E é por isso que, ora no inferno, ora no paraíso, vago pelo limbo dos homens frustrados, carregando na sola dos sapatos a sujeira da decepção. Escuto sempre no ecoar dos meus passos um ruído de devastação, e eu não sei se são admiradores rastejando-se em meu encalço ou se são lágrimas tamborilando pelo chão. Foi então, num instante entre o aqui e o agora, que notei o peso da resipiscência que pairava por sobre a minha cabeça e sob ela descalcei a decepção dos sapatos que machucavam meus pés. Raspei dos sulcos de seus solados emborrachados toda aquela imundice odiosa e vi, quando os fanicos cascatearam pelo chão, que eram na verdade fraguimentos do meu sonhar. E então, na minha memória tão sadista, me lembrei de uma vez que li uma frase bonita, acintosamente grafada na cabeceira de uma das camas sobre as quais me deitei e gemi. Não me recordo qual, tampouco me lembro com quem. É proibido pisar nos sonhos, dizia. Algo mais ou menos assim. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Resipiscência


Dói tanto. E as lágrimas rastejam pelo meu rosto, ácidas, abrindo caminho por entre os vincos e por entre as quinas, escrevinhando curvas neste meu esgar indolor. Da beira dos meus olhos elas saltam das pálpebras como quem salta de um precipício, se lançando ao vazio, vertiginosamente angariando novas inexistências, novas indecências, novas dores. As velhas dores, porém, assomam-se como que por pirraça, pisoteando rudemente o meu coração. E o coração, outrora tão vigoroso, guincha nas revivescências do cansaço, esvaindo-se nas mãos da desistência, desconseguindo-se.
Sinto em cada grota do meu corpo a carência daquele sorriso que a luxúria pela luxúria não é capaz de causar, e minha pele se eriça ao perceber a frieza da solidão, ao imaginar o sorriso se estampando em outros rostos – sorrindo-se para outros rostos. Minhas mãos, tão pequeninas, estremecem perante a perspectiva de nunca mais tocar-lhe a face. E a face, contorce-se como que atingida por um bofetão, daqueles que nocauteiam a alma e explodem o crânio. O crânio, por sua vez, envolve agora meus pensamentos para que eles não escapem e firam algum inocente que cruze meu caminho. Pois o que me resta é a honra de admitir as culpas, tanto elas quanto os méritos. Méritos de um fracassado e, por conseguinte, os fracassos de um merecedor.
Deixei que a felicidade escorresse livre pelos meus dedos e, pelo sim ou pelo não, agarrei-me ao talvez e o que me sobrou nas mãos foi a certeza do nunca. Certeza que se perpetuou entre nós, imbatível e nua como uma muralha. Muitos não sabem que, por verdade, muralhas não servem para proteger nem para trancafiar, mas que têm a função de nos fazer imaginar o que há do outro lado. A tortura, no entanto, se consiste em saber e já ter provado do que do outro lado há, porém ser incapaz de provar novamente. Eis o martírio que hoje me escapa pelas palavras: saber que não lhe pertenço, mas que tive a chance de pertencer.
Como é de praxe, e é sabido por todos e por mais alguns, a minha chance se perdeu em algum momento entre o talvez e o jamais, me deixando velar a tristeza do quase, imaginando tudo o que poderia ter sido e não foi. É, como se pode notar, uma dor muito consciente, o que não significa que seja menos dolorosa. Ora, tem-se que a razão é inimiga do alento, pois saber das coisas as fazem parecer mais reais e, consequentemente, mais intensas. Mas as consequências não puderam e não quiseram ser preditas pelo meu coração apaixonado e hoje pago em altos brados pelas culpas de um amor silencioso.
Sim! Amei-te calado assim como odiei aos berros. Surpreendi-me, por fim, sendo estrangulado pelos braços do silêncio, tão fortes e viris quanto os teus. Sei que é tarde, mas o tardar das lágrimas não poderia abonar o atraso do sentimento? Sei que não. Pois a esperança me abandonou assim como você nunca fez, era eu quem nunca estivera ali para ser acompanhado. Hoje o arrependimento mina pelos meus olhos e encharca meu peito magro, mas que retumba quando ouve teu nome. E eu me envergonho, por sempre ter dito que é preferível chorar por aquilo que fiz do que  por aquilo que deixei de fazer. Agora minha língua está queimada assim como meus lábios estão molhados. E eu já não consigo mais sonhar, nem sorrir e nem cantar. Dói tanto. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sonhos, Muriçocas e Tatuagens


Ontem, antes de me deitar, fechei as cortinas, como de costume, para que os maus pensamentos não entrassem pela janela e assombrassem meu sono. Mal sabia eu que eles já haviam entrado, cavalgando nas costas das muriçocas que agora faziam serenata de baixo do meu colchão. A música era irritante, porém melodiosa e trazia nas notas mais baixas um sussurro que clamava por profanação. Era como uma oração antes de jantar, laboriosa e sombria. Muito fervorosa, por sinal.
Quando apaguei a luz elas se calaram por um momento, fungando a escuridão, sondando o ar no intuito de escutar minha respiração adormecida. Mas ao ouvirem meus pés tateando pelo quarto a procura de um travesseiro que caíra ao chão, voltaram a cantar, uma a uma, ainda mais alto e mais irritadiças do que antes. Eram geniosas, aquelas danadinhas! As muriçocas não me incomodavam, sabe, nem suas músicas nem seus beliscões. Sempre gostei das coceiras que me provocavam, eu tenho o sadismo como um dom, mas quando finalmente me deitei, percebi que eram outros os comichões que me importunavam.
Meus sonhos foram se construindo lentamente à medida que a subconsciência aflorava e o corpo abandonava gradualmente a fronteira da realidade. Além da fronteira, as ordinárias sugadoras de sangue já se embeveciam, mas isso pouco me incomodava. Aquém da fronteira, no entanto, uma janela semiaberta se materializara, grande e acortinada. Pelo vão entre um vitral e o outro, caiam pesadas gotas da chuva que há dias açoitava os telhados das casas e desbotava a paisagem, mas teu pequeno quarto continuava aquecido e perfumado por algo que recendia do teu corpo. As gotas invasoras, geladas e atrevidas, pintavam bolotas escuras no forro vermelho da sua cama, davam a impressão de que vinho havia respingado ali. Mas os respingos eram outros, indecentes e inomináveis.
Sonhar com você nunca me foi novidade, só que geralmente eu não me recordo na manhã seguinte. Quando abri os olhos, porém, estava tudo tão fresco na minha cabeça que cheguei a sentir as têmporas doloridas, tornando a fechar os olhos, desejoso de que o ar matinal te apagasse da memória. Mentira minha, isto eu não desejei. Deveria, mas não desejei. Eu covardemente me apeguei àquele sonho assim como me apeguei às tardes primaverais que há tempos não desfruto contigo, e as flores da saudade desabrocharam rubras e espinhosas na teimosia do meu coração. Teimosia maior registrou-se em meus olhos, que se recusaram ceder perante meu esgar de tristeza e encararam os forros da minha cama na ilusória esperança de que eles se avermelhassem. Mas as fronhas e lençóis, tão teimosos quanto, continuaram brancos, sempre brancos.
É que os sonhos, por mais que sejam apenas sonhos, sempre me trazem a verdade. A verdade de saber que tudo o que você representa é um espaço vazio na minha cama, uma voz a menos na solidão das minhas noites, uma ausência que se soma a todas as outras do meu coração, lúgubres e inconcretas. Quando me levanto, nem mesmo as muriçocas estão mais ali para me fazer companhia. Somente eu, meus sonhos e uma janela fechada, encerrando um mundo no qual não me encaixei. O encaixe, tão solícito, faz-se nas entranhas do meu corpo quase que diariamente, preenchendo-me do vazio que só os homens aguentam, do mesmo vazio que transborda do seu peito forte e viril. 
E a virilidade, nesta manhã, recendeu pelo meu quarto e eu pude sentir na pele um pinicar que não provinha dos beijos sanguinários das minhas estimadas muriçocas. Era, para minha infeliz surpresa, mesmo depois de tantos dias, o seu cheio tatuado no meu corpo desnudo. E o meu alento foram lágrimas não derramadas, imaginando que há alguns segundos talvez estivesse você ao meu lado, dormindo comigo, me abraçando pelas costas, me chamando por um nome que é só meu. E meu corpo escarnificado ardeu ao ser banhado pela realidade. Pois uma tatuagem não se esconde, não se apaga, não esquece. Perpetua-se. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Lua Velada


Naquele dia, aliás, naquela noite, tínhamos combinado de ver a lua juntos. A lua, porém, orgulhosa como só ela sabe ser, escondeu-se por de trás das nuvens, deixando a entender que não éramos dignos de contemplá-la. As nuvens, por sua vez, ficaram tristes ao ver nossos olhos mirando um céu vazio e comoveram-se copiosas chorando por sobre a face da terra. Depois de desaguadas, então, a lua se surpreendeu nua e descoberta deslizando pelo céu, ostentando uma brancura petulante, ignorando nossos beijos e nossas gargalhadas triunfais.
Nos outros dias, antes que a lua se arredondasse de todo e me trouxesse você, estivera eu mergulhado numa apatia monstruosa. Ora, as piadas continuavam engraçadas, porém não tinham mais o poder de me fazer gargalhar. Mas naquela noite não, naquela noite banhada pela lunar petulância não, naquela noite eu deixei que os risos me arrombassem a garganta e que as lágrimas me explodissem nos olhos, como que uivando em homenagem a velha gorda e pálida que pairava luminosa no topo do céu. E os sorrisos, tão brancos quanto, me escapuliram sem o menor pudor. Mérito seu, deve-se admitir.  
E as gargalhadas, já desenferrujadas, só se calaram quando confrontadas ao silêncio dos beijos, que deslizaram gananciosos pelos meus lábios, fazendo-os avermelhar. Eram beijos orvalhados como uma fruta colhida pela manhã, enérgicos como as carícias da juventude e fortes como a segurança da maturidade. Ora gelados, ora enluarados. Às vezes desencontrados, negando fogo e cedendo carícias. O fogo negado, no entanto, fazia-se flamejante quando concedido, queimando-nos por inteiro e nos fazendo agonizar em labaredas de irresponsabilidade. Lindas labaredas, carinhosas como tuas mãos macias.
Meu corpo, tolo e sedento, arrepiava ao mínimo toque, respondia ao mínimo movimento, gracioso e inigualável. Teu corpo, forte e hirsuto, me envolvia no máximo sonho, preenchia-me no fálico intento, carinhoso e incansável. Incansável era o ardor que ardia em meu peito, incandescente como o sol da meia-noite. E a dita metade da noite chegou sem ser convidada, me alertando sobre o momento de voltar ao mundo real, onde as nuvens não choram e as camas são vazias. Mútuo era o pesar em nossos olhos que desejavam se reencontrar na manhã seguinte. Mas ainda assim sorrimos a guisa de boa noite, e dormimos separados carregando os resíduos de um lindo sonho, partículas de saliva e suor um do outro, e respirando os raios do luar que outrora nos amaldiçoara, mas que agora velava o nosso adormecer.  

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quarto n° 703


Um susto. Um homem. Um beijo. E ao tornar abrir os olhos a lua já se fizera preguiçosa rastejando-se pela abóbada do céu, mansa como teu carinho, tenra como teu vigor. Foi tudo muito rápido, ligeiro a demasia, como se minha respiração orgástica houvesse engolido uma colherada do tempo. Como se os ponteiros tivessem pressa de mandar você embora, apontando e acusando que teu lugar não era aqui e que este nosso sonho estival não passava de uma lacuna na linha do existir. Mas a lua estava ali, ah sim, e era nossa testemunha.
O que ninguém mais escutou, ela ouviu. O que ninguém mais enxergou, ela viu. Através das cortinas vazadas da janela ela pode reportar às estrelas o que naquele quarto se passava, que um sacrilégio divino se consumara. Começaram os festejos de verão! E o suor veranil fez-se caudaloso, embicando as amolgaduras de teu peito que arfava, recendendo e impregnando de segredos aquele quarto de hotel. Lembro-me do número, acintosamente gravado naquela porta que não rangia, azeitada como meu despudor. Eu me lembro, tenho certeza. Alguma coisa entre 702 e 704. Uma lembrança muito vaga, admito.
Mesmo com as luzes apagadas, como é de praxe, fechei os olhos e deixei que cada centímetro do meu corpo sentisse o teu sabor. Terno como um chuvisco de fim de tarde que nos acaricia a face e nos ensopa por inteiro, ardente como um soldado de guerrilha que a casa torna. Nas trincheiras do meu corpo deixei que se fizesse abrigo, anuindo às metralhadas que ribombavam do teu coração. E de fato batalhamos como batalharam os grandes reis do norte, até que nem mais um homem estivesse de pé.
Eu, nativo, honrei-lhe com o que tinha de melhor. Tu, hóspede ilustre, presenteou-me com o que tinha de maior valia. Intercambiamos fluidos, cada um em sua doçura. Hóspede entumecido, hospedado no anfitrião que se concedia tão hospitaleiro. Fora um lindo banquete, daqueles que no futuro serão lembrados nas canções, trovado na viola dos trovadores, e cantarolados nos lábios macios de um menino. Lábios meus. Agora talvez teus.
No mais tardar, quando as despedidas já haviam se proferido, já sentado na sombra de minha casa, resolvi abrir a janela na esperança de que o vento levasse o seu cheiro doce que se impregnara em minha roupa. Um perfume daqueles que lhe aguçam o espírito e te faz ao mesmo tempo querer fugir e querer enfrentar. Mas o que por verdade o vento levou foram as minhas antecipadas saudades. Eu fiquei ali sorrindo tristemente, imaginando quando voltaria a te ver e me esconder de novo noutro quarto de hotel, noutra janela, noutro número, e teimosamente ignorar a inconveniência da lua, solitária e invejosa, nos olhando cheia de censura. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Valha-me Demo


Com o passar dos anos, e com a estadia da experiência, você percebe um dia que tudo na vida é nocivo. Conclui, porém, por circunstâncias, que alguns venenos são mais saborosos e que matam mais lentamente, com maior perícia. Com as veias imundas e intoxicadas, então, o que nos resta e caminhar na direção em que o nariz aponta, sem ao certo saber se em busca de um antídoto ou se de um soro um tanto mais límpido, que abrevie a dor. 
A vida é como um esfaqueador, que gosta de encarar e registrar o visceral momento em que o brilho abandona os olhos, e recordar depois das vísceras como seu novo prelúdio de masturbação. E ela sabe gozar, a tal da vida. A morte, por sua vez, é como um estuprador: quando menos se espera, sem amor ou consentimento, ela chega pelo lado mais escuro da rua e nos preenche por inteiro. E se gritar é pior. Se gritar ela entra com mais força.
E a vida e a morte, tão irônicas, às vezes alimentam fetiches uma pela outra. Pois eu sei que os opostos nem sempre se atraem, mas às vezes sim e temos de respeitar. As duas flertam, sabe, cobiçosas, retesando-se sempre nos limites entre a cordialidade e a depravação. Quem olha de longe vislumbra um chá de comadres, mas quem escuta o que dizem só consegue visualizar duas prostitutas tragando e debochando, inalando o fedor que os seres humanos exalam toda vez que se levantam e se deitam sobre elas. Mas elas são esforçadas, deve-se ressalvar, por amor à profissão, imagino eu.
O esforço, no entanto, é uma dádiva dos medíocres. Quem é bom é bom por que é bom, por que faz por prazer. Mas eu, como que por castigo, sou regado a cada dia pelo suor da mediocridade, e me deixo levianamente levar na saudosa labuta dos brasileiros, povo de fé, da nuca suada e do sangue quente. Vou galgando degraus que desmoronam sempre que o patamar do sucesso se aproxima, mas eu os reconstruo, ou talvez até passe impetuoso por cima dos escombros, de pés descalços e cabeça erguida.
Que comovente este meu coração engajado, ora, pois, engajado na minha própria luta e no meu próprio deleite. Se a vida e a morte são prostitutas, minhas caras, hei eu de pagar o preço. Serviço completo! Com direito a dupla penetração e lençóis limpos. E se o resto são venenos e antídotos, mergulharei no alambique engarrafado de Minh‘alma e embebedarei cada poro meu na ardência da mais pura cachaça, anestesiando, assim, as queimaduras dos ombros que esse sol ainda há de queimar. Pois eu sei que Deus é brasileiro, mas o diabo é poliglota e também sabe falar o bom português.
Valha-me Demo, cafetão da morte-vida! Talha-me com a faca do açougueiro tão viril e molesta-me no falo rubro da pátria amada: pau-brasil. Tarados, esfaqueadores, poetas e prostitutas. Nocivos e revigorantes em equivalência. É que com o passar dos anos você percebe que tudo na vida é nocivo. E conclui, por circunstâncias, que alguns venenos são mais saborosos e matam mais lentamente, com maior perícia. Com as veias condenadas, então, bombeio esse meu sangue miscigeno com todo meu fervor, todo meu calor, correndo em maratona na direção em que o esperma jorra, sem ao certo saber se para regar essa terra roxa ou seu para alimentar os sacrilégios do meu amor. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Flores no Asfalto


Madrugada após madrugada eu tenho tido o mesmo sonho. Estou caminhando pela rua, rumo a um destino que eu me lembro e que se solida insistente como o primeiro plano dos meus pensamentos, mas que, acovardado, prefiro não comentar. Sou sonhador o suficiente para entender que falar das coisas as fazem parecer mais reais, o que, por verdade, elas não são. No entanto estas empíricas utopias se repetem a cada vez que me deito, e eu tenho a certeza de que só me abandonarão quando eu aceitar por fim me deitar à eternidade. Mas enquanto vivo, ei-las.
Como dito, eu caminho pela rua pisoando um destino indizível. Faz-se dia. Mesmo assim, num determinado ponto do percurso eu olho para o alto e me assusto ao perceber que há um sol lá em cima. Mas o que me assusta não é a visão de um sol lá em cima. Assusto-me, porém, por ter me assustado ao ver um sol lá em cima. Entende? Não é o medo do amor, é o medo de ter medo do amor. Não é temer a morte, é ter medo de seu respectivo temor. Não é ter medo do futuro, é temer teme-lo. É o medo de já estar temendo aquilo que um dia jurei amar.
O medo, então, aliado à petulância, goza de mim escarnecendo uma máscara de triunfo. Eu, humilde como sou, abstenho-me em abaixar os olhos, ignorando o sol do inverno, e caminhando veemente rumo ao indizível, outrora dito, outrora esbravejado. Outrora, porém, nunca aconteceu: estamos tratando de sonhos e sonhos não tem passado nem futuro, não há ontem ou amanhã, não há além ou outrora. Há somente o milésimo de segundo entre o despertar e o adormecer. E talvez nem isso. E talvez isso tudo.
Na veemência dos olhos baixados, encaro não mais ao sol, mas sim às superfícies por ele iluminadas. Vejo flores que brotam no asfalto assim como vejo o sangue que brota das flores. É tão poético, não é? Tudo há de ter sua feiura para que o belo tenha destaque. É tudo muito providente, fazendo-me quase acreditar em Deus. Note o asfalto de um negro tão profundo que só está ali para que a brancura vívida dos meus graciosos pés ganhe ênfase na luz do sol invernal. Observe a luminosidade tristonha que só se resplandece para que minha silhueta esguia seja recordada em forma de sombra. Repare nos homens que transitam pelas calçadas, eles só caminham por estas bandas para que haja alguém a me admirar. Olhe só como é poderoso o meu ego, ele se expande a cada manhã para que a escória da humildade não tenha vez. Ela fede.
O que me resta, e acho que disso eu sempre soube, é não mais deixar os olhos se distraírem com o sol ou com o chão. É olhar em frente, sempre em frente, como se a vida se chamasse retidão. E mesmo sem deixar de ser tortuosa, escolher a cada manhã uma nova linha reta sobre a qual se equilibrar. É picotar distâncias e contar o tempo em metros, abreviar lonjuras e medir o mundo em litros. Angariar verdades e reciclar certezas. Abandonar os ócios e celebrar belezas. E fazer da realidade um sonho que nunca adormeceu. Estes restos, estas vontades, estas belezas, porém, me são impossíveis. Mesmo no mundo dos sonhos, intangível,  incogitável, intransponível.
Pois dia após dia eu tenho tido a mesma vida. Estou caminhando pela rua, rumo a um destino que eu já esqueci, mas que de quando em quando se permuta na frente destes olhos corajosos demais para se amedrontarem com a iminência do futuro que nunca chega. Sou realista o suficiente para perceber que falar das coisas as fazem parecer mais reais, mas que, por verdade, só parecem. No entanto, essas inúteis epifanias se repetem a cada vez que eu me levanto, e eu tenho a certeza de que só me abandonarão quando eu por fim plantar os pés na realidade. Mas enquanto durmo, ei-las. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

O Convidado Ausente


Escutei, como no eco de uma trovoada que nunca trovejou, as palmas felicitadas celebrando as bonanças da data querida que se avizinhava tão ligeira, e que me ultrapassava tão rasteira. Vislumbrei, como num relâmpago que nunca trincou o horizonte, os sorrisos inebriados pelos gracejos e abraços de congratulação. Toquei, como num beijo que nunca estalou, teu rosto bonito me olhando cheio de cobiça. E sorri em resposta, anunciando que os meus pesares foram de todo entregues juntamente com meu presente mal embrulhado, com meu abraço obscenamente apertado, confessando em cochichos o quão lindo você estava nesta noite.
A noite, porém, se fazia ensolarada como se sua beleza houvesse alterado a sincronicidade dos deuses, momentaneamente hipnotizados pelo fulgor das taças que brindavam e esbravejavam teu nome. O nome, por sua vez, apelidou-se em meus lábios desde o primeiro encontro, e há de falecer neles até que chegue o último. Já os tais lábios, tão citados, policiaram-se quanto ao desejo de se acoplar a ti, temendo a censura dos olhares amigos. E os tais amigos, poxa, nem tive a oportunidade de reparar neles, pois tampouco tive interesse. Fora uma celebração soturna, a soturnidade de uma noite que nunca anoiteceu.
No clarear do dia que se seguiu acordei resgatando de meus sonhos a ressaca de uma festa que eu jamais festejaria. Na minha têmpora jorrava um sangue indecente, conivente ao desejo de te confraternizar. Mas em meus pés latejava a frieza do atraso, providente ironia do acaso, e as calosidades obtidas por passos que eu sei que não caminhei. O caminho, entrementes, percorreu-se vertiginosamente, invisível como teu coração, intangível como teu fantasma.
Mas o seu presente continua embrulhado, ansiando o momento de ser rasgado por tuas mãos, assim como eu ansiei e ainda anseio, admito. A roupa que escolhi continua macia e engomada, esperando ser despida de bom grado perante o teu cobiçado despudor. Mas a presença de meu presentear, tal como o presente do meu presenciar, não mais poderão ser materializados em teus braços fortes. A tua força, porém, se faz sólida quando me felicito ao te ver se solidando em mais um ano de vida. E teu nome outra vez se apelida em minha voz tristonha, pois repeti-lo faz parecer, às vezes, que te tenho mais achegado. Mas é com inquestionável alegria que proclamo: Feliz aniversário, Meninão. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Obituário de Ícaro


O nome disso é tristeza. Não há por que ou como negar.  A negação é o mote da ignorância, e de ignorável nesta terra basto eu. Mas o que realmente me destrói não é este meu senil entristecer, pois depois de me conformar com as lágrimas elas se tornaram grandes amigas, chamo-as pelo nome. Inconcebível é saber que os pássaros lá fora ainda voam e, como se já não bastasse, eles cantam. Tal que não é uma afronta descabida? Como podem, assim, deliberadamente abrir as asas e se lançar numa liberdade tão afroditosamente linda? Sem ao menos pestanejar, tampouco me encorajar. Sem perceber que o que pra uns é música para outros pode ser ruído e que, para mim, era o mais puro e vertiginoso silêncio.
A vertigem dos céus. O silêncio dos Deuses. A música dos mortos. E o ruído cadavérico dos órgãos implodindo de encontro ao chão. Chão que nunca me fizera tão sólido quanto um dia fizeram as nuvens que maliciosamente me chamavam. Vide em paz – solfejavam elas – e que Zeus lhe acompanhe sempre. Das mãos do Grande, porém, nenhum relâmpago atendeu ao meu clamor. Ora, clamor dos tolos, aprisionável pelos limites frágeis da ionosfera. Ornando a fera, celestial arcanjo de rapina. Feito menina, sonhando com as ninfas helíades que sabiam voar.
E minhas lágrimas, saudosas águas fraternais, fizeram-se vaporosas como minhas últimas companheiras, umedecendo os meus lábios açoitados pelo vento e me permitindo proclamar uma última maldição, um último reverbério de amor. Malditos sejam os homens, tal como seus falos ajumentados, que regaram dentro de mim os devaneios desejosos em me enfunar pelos céus, em me levar às estrelas, em me pederastir e me travestir no serafim efeminado em que me transformei. Fiz-me Antusa, Oráculo das orodeminíadas. Fiz-me Oréada, Rainha Efidríade do Vento Norte. E a morte, amada enteada do submundo, reverenciou meus pés chagados antes de me carregar consigo em seu manto de temor. 
Temorizado, embrulhei-me na mortalha enregelada e aceitei passivamente a morte que me abarcou súbita e indolor, banhando-me no conforto paradisíaco da inexistência. Mas então, como que num milagre, o inexistir se dissolveu e a atmosfera se fez palpável entre os dedos das minhas mãos e eu pude afinal galgá-la como que uma fada que decola por um jardim. A flores, no entanto, eram desenhadas pelos torvelinhos do vento e os perfumes tinham cheiro de alegria, sepulcral alegria. O que me restou a fazer foi recolher um ramalhete de flores intangíveis e oferta-las à imensidão, em tom de agradecimento.
Agradeço copiosamente àqueles que me furaram as pupilas antes mesmo que as luzes do sol se dispusessem a perfurar. Por sua vez, a cegueira dos curiosos foi quem me fortaleceu, despontando de minhas espáduas asas douradas que os olhos não podiam ver. Hoje, por mais que minhas vísceras tenham um dia forrado o chão sobre o qual caminham, saibam que continuo voando. Plainando ao redor daqueles que me condenaram e espetando os olhos dos que carregam o sangue dos meus condenadores. Lustrando os vitrais da abóbada celeste. Dançando o balé das brisas mansas. Aguaritando o céu que ganhei de presente. Voando, bebendo e cantando. Eternamente.  

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Confabulações do Silêncio


Quanto tempo se passou para que eu fosse capaz de rascunhar as palavras que estes olhos agora perscrutam? Minutos. Meses. Milênios. Séculos que começavam numa página e terminavam na outra. As páginas, porém, eram vazias, mas o amarelado do papel denunciava que havia história ali. E como havia.
Havia princesas e terríveis dragões, castelos medievais e vilões funestos, bruxas narigudas e maldições milenares, madrastas malvadas e fadas boazinhas, gnomos e cavalheiros corajosos. Havia também alguns outros seres cujos nomes ficaram esquecidos nas confabulações do silêncio. Silencioso era o amor que regia estas parábolas da vida real, segredando os desejos destes meus olhos sonhadores. E por mais que os sonhos fossem bonitos, eles eram, afinal, sonhos. Pois as páginas envelhecidas continuavam em branco, multicoloridamente em branco. E no alto da página se viam os calígrafos rebuscados desenhados pelas mãos do vazio, grafados na transparência vívida de um tinteiro lacrimal, límpida e fosforescente.
Era uma vez um reino muito distante, encontrava-se ou desencontrava-se em algum lugar entre o aqui e o acolá, onde as flores cantavam e os homens dançavam, onde não existiam tristeza ou sofrimento, onde a morte era uma lenda e não um destino, onde só se enamoravam menino com menino. Na realidade utópica deste lindo reino existia uma solitária lágrima que caia. E que caía. Que caía. E caía. E Plim! Vivera feliz para sempre. É que as lágrimas também carregam histórias, sabem, mas para ouvi-las é necessário saboreá-las. Ou simplesmente deixa-las cair.
As minhas lágrimas, no entanto, caem por sobre o papel sem proclamar ao menos um único verso. Fazem-se cruas e mortas, desbotando a invisibilidade das poesias criptografadas em minha própria pele. Mas eu sei, inescrupulosamente sei, que quando se abrem os epitélios toda essa brancura macia que me veste grita em sonetos de ardor. E as lágrimas, por sua vez, são esquecidas e transcritas em caligrafias seminais, que ribombam e serpenteiam nesta minha psicografia tão carnal.
Mas e quando o coração se acalma e a respiração apascenta, olho para as páginas que me retratam e encontro uma inexistência tão sólida quanto o vazio que antes me transcrevia. Em branco. Inertes. Amareladas. Como se nunca houvessem rompido, como se nunca fossem violadas. Fui então tomado pelo desejo de virar a página, mas quando me percebi já estava na verdade lendo outro livro. Tão bestial quanto a Bíblia. Tão celestial quanto você. E, como eu, tão humano. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A Máscara


Olhe no meu rosto. O que vê? Se fossem sorrisos, ora, estas palavras não careceriam de ser rabiscadas. Contemple o esgar indolor que se estampa em cada ruga minha, vede o vazio dos meus olhos, dispa esta minha máscara de ineptidão. Da inepta vitória, apta derrota. Da vitoriosa tristeza, a inércia nula dos fracassados. O fracasso, porém, nunca foi um de meus temores, sendo ele a todos nós um destino inevitável. Pois, partindo da premissa de que o mundo é dos vencedores, bem, conclui-se que o mundo não tem dono.
Melhor assim. Estou convicto de que de tal modo o mundo se encontra em boas mãos: em mão alguma. No entanto, abstendo-me dessa possessividade tão vã, a quem pertence o pobre dom da propriedade? Propriamente dita, pertence ao pertencer, versada na magia verdosa do capital, capitalizada naquilo que muitos chamam de amor. Eu, tão inapto, chamo de sexo.
É de fato contrastante, pra não dizer grotesco. Meu olhar vazio vagueando pelo meu corpo, meus órgãos e membros, que serpenteiam e incandescem em mim, torturando cada célula minha e entoando o berro animalizado que escapa de cada poro meu. Chega a ser cômica a figura de meu rosto estatizado contrapondo-se ao meu todo que baila, cada micropartícula que infinitesimalmente dança, cada filamento nervoso que emite ondas eletromagnéticas, desfibrilando impiedoso meu coração desapaixonado.
Mas meu decrépito rosto se faz impassível, fazendo de minhas acnes asquerosas a sua única demonstração de vida. Maldito seja, sebo odioso que me espoca no vincos do canto da boca, se misturando ardiloso ao veneno do meu salivar. Da tal boca, que se abre de quando em quando, tão maldita quanto, profanam-se palavras sopradas que açoitam a alma daqueles que caminham mais achegados. Alguns choram. Outros fogem. E tem aqueles que fingem força, como eu. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

Enésima Sinfonia


E quando lhe faltam palavras, você grita? Pois eu prefiro cantar. Da sinfonia que escorre pelos meus olhos, porém, não se ouve um único som, nada de acorde ou melodia. Escuta-se, no entanto, temeroso, os esbravejos do silêncio.
Doravante, no meu peito palavras não faltam. A falta consiste, entrementes, em lábios aptos a proclamá-las. Eles não mais existem. Fugiram-me na noite de ontem, ou de anteontem, depois de amanhã ou antes de nunca, não me lembro mais. Beijaram-me pela última vez num outro anoitecer ao qual cada detalhe me recordo. A lua feita em queijo. O verbo feito em carne. O sêmen feito em doçura. O louco feito em loucura.
E o meu canto, sinfônicas águas moribundas, tornam a respingar insólitas nas páginas do caderno já usado, lembrança de um sonho colegial. Lembro-me das risadas sufocadas e das garotas assanhadas, dos joelhos escoriados pela bonança da juventude. Vislumbro com saudade as camisetas alvejadas e os tênis sujos. E sorrio, desaguado, relembrando os banhos de chuva que nunca, jamais, me resfriaram como a tua ausência hoje me resfria.
Agora, no hoje, encharco-me pela frialdade que me engolfa, hora sim, hora também. Mas eu me recuso. Tendo eu de escolher entre o sóbrio e o insano, escolho o inexistente. Ora, pois o último inimigo a ser aniquilado é a morte, assim como a última amiga a ser conquistada é a inexistência.
Sem mais, inexisto no meu próprio existir, alheando-me àquilo que tenho por amor, mas que não tenho para amar. Eis a penúria que me reafirma a cada manhã: conhecer o caminho de tua casa sem me permitir percorrê-lo. Estagnado, então,  me calo, na esperança de que um dia o silêncio fale por mim. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Feliz Ano Novo


Enxergo, bem alto no céu, estrelas que florescem a guisa de um novo tempo. Todos vestidos de branco, ilustrando uma pureza que minh’alma  não detém. Os fogos que multicolorem o negrume do horizonte não são capazes de aquecer a frieza que se abate no meu coração, pois o meu corpo é chama que queima, sinuosa labareda, mas meu calor é ficcional e não pode ser contado em números, tampouco em graus.
Absinto-me sozinho, mesmo quando em teu abraço, aconchego que me acolhe já no intuito de largar. Apesar de que, quando ao teu lado caminho pelas ruas de pedra tolhida, ancestralizo em meu peito instintos de uma era da pedra lascada, ânsia animalizada que sodomisa e, bestialmente, me faz possuído na gana de sentir-te em mim. Profundas são estas querências. Bestiais, insisto em dizer.
Sei, e me faz bem saber, que existem sim sublimes sentimentos na rudeza do teu olhar. Os teus olhos, porém, de quando em quando se fecham, de sempre em sempre se desviam, de nunca em nunca se prendem num só contemplar. Contemplativo é o amor que irradia do teu peito: vislumbra, consome e se vai sem nem mesmo limpar os beiços, sem lavar as mãos, já farejando a doçura doutros lábios, assim como os meus, tão doces, tão juvenis.
Doravante, não anseio fazer-te meu e somente meu: tamanha felicidade me mataria. Note, na alvura das vestes dos nossos amigos, a brancura que anuncia a calmaria na qual me mergulhei. Eis a alvorecência do meu coração apaziguado, mas se existem manchas na minha amada palidez a culpa é sua. No entanto, astuta criancinha, meninão de longa data, absolvo-te toda culpa e pecado, pois são elas, pecaminosas virtudes, que me amarram a ti.
Amo-te no silêncio, apesar do quão gritante é o medo que me revira as entranhas, vibração tão visceral. Pois, assim como o tempo hoje se despede, temo que a tua despedida seja sempre a derradeira. Mesmo sorrindo, mesmo cantando, és capaz de me traduzir quando te observo dormindo, assistindo o teu sono, dançando tua respiração ruidosa. Tão lindo, tão plácido, tão faceiro.
O tempo é novo, o ano também é. Eia, pois, vida nova. Cristais da terra brindando aos fogos no céu, mas hoje não é o cheiro da pólvora nem o sabor do álcool que me fazem arder e umedecer as vistas. Faço-me copiosamente inerte nesta atmosfera de renovação, cultivando em mim fúnebres aspirações, pois sinto saudades até mesmo quando te atraco num beijo. E meu amor silencioso se faz sólido. Mas você sabe, e te faz bem saber, que quando lhe desejo um “feliz ano novo” queria na verdade gritar que eu te amo.