sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Paterna mãe...


Foi como perder um membro,
Um abraço de confiança.
E onde está a minha herança?
Dá-me a parte que me cabe!
Não deixe que tudo acabe!
Pois do teu sorriso ainda me lembro,
Coisa de um tempo de criança...

Foi como um abandono no altar,
Deixou-me sozinho na dança.
Será que você não se cansa?
Tantas coisas que você não sabe!
Tanta coisa que te cabe!
És uma chuva de setembro!
Faz-te de teu nome uma lambança...

Foi como não mais te conhecer,
Foi um cessar da esperança,
Será que você não se dança?
Tantas coisas que você não cabe!
Tão pouco, tão quanto acabe!
Tantos beijos, não me lembro!
Coisa de um tempo de criança...

Coisa de uma criança de outro tempo...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sagrado Antagonismo


Eu queria saber o porquê dessa busca incansável e inútil atrás de um vilão que não existe. Queria saber no que se baseia esse anseio desesperado de achar um culpado, essa necessidade insana de ver na condenação do outro uma chave que certamente abrirá as portas de um céu que só existe na nossa cabeça.  Não, meus caros amantes, os homens não são divididos entre mocinhos e vilões. Não somos assim tão compreensíveis, antes fôssemos! Não somos tão simples, não somos tão insossos, não somos personagens planos na mão de um Cartunista; somos seres de personalidade esférica, de vontades próprias.  E a maneira que achamos de maquiar nossa verdadeira cor foi criando princípios que só existem pra nos fazer acreditar que não estamos sozinhos nesse grande e triste mundo acinzentado.

Ora! Estaria agora eu então negando a existência de um Deus?! ... Sinto lhes informar que não meus bons homens, é justamente o oposto, estou apenas negando a existência de servos.

Se Deus existe, eu tenho pena dele, pobre homem, há de ser o maior dos solitários. Pois parece que Dele já não precisamos mais, não é? Não precisamos de um Deus, queremos apenas um demônio, sobre o qual colocamos as culpas e os deixaremos lá, pagando pelos nossos pecados! E os demônios estão mais perto do que imaginamos e é necessária muita precaução, meus amigos, podem estar dentro de nossas próprias casas, dentro de nossas próprias vidas, dentro de nossos Corações... Mas não dentro de nós, é claro.
Seja bem vindo ao mundo, meu amor! Use das minhas lágrimas e lave bem as tuas mãos. Sois o meu Deus.
 E o teu diabo sou eu.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Fraterno Fim.



Queria pedir perdão.

Perdão se eu não sou aquilo que você sempre sonhou,
Perdão se eu não sou aquilo que sempre sonhei,
Perdão se não somos aquilo que sempre sonhamos,
Perdão se eu não sonhei com aquilo que você seria,
Perdão se eu não sonhei com você,
Perdão se você veio e eu deixei,
Perdão se não quis mudar você pra mim,
Perdão se você era como eu sempre quis,
Perdão se você era como eu nunca quis,
Perdão se você me satisfez,
Perdão se não quis mudar-te,
Perdão se quis conservar-te,
Perdão se simplesmente te aceitei.

Queria agradecer.

Obrigado por fingir que eu era aquilo que sempre sonhou,
Obrigado por tentar me fazer acreditar que sou aquilo que sempre sonhei,
Obrigado por fingir que fomos aquilo que sempre sonhamos,
Obrigado por não ser aquilo que pensei que você seria,
Obrigado por ser o que eu não sonhei,
Obrigado por ter vindo,
Obrigado por não ter mudado por mim,
Obrigado por ser como eu sempre quis,
Obrigado por ser como eu nunca quis,
Obrigado por me satisfazer,
Obrigado por não mudar quando eu quis,
Obrigado por continuar assim,
Obrigado por você ser uma pessoa... Aceitável.

Perdão por ser Obrigado,
Obrigado pelo seu perdão.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Fina existência


E quando percebi já era tarde, eu estava chorando outra vez.
E assim eu continuaria, não fosse a chuva fina, que tamborilou na janela e foi encontrar minha pele um pouco mais adiante. Ainda meio sem vida, sequei com os lençóis aquela mistura homogenia e límpida de chuva e lágrima que descia pelo meu peito. Me demorei admirando o meu próprio umbigo, meus joelhos, minhas pernas...
Olhei pro meu reflexo enegrecido na TV desligada em minha frente. “Patético”, pensei. Tentei voltar novamente à atenção pra aquilo que minhas mão seguravam: um livro pequeno, capa dura, esboçada com uma árvore, um sol e um menino. As últimas sensações daquela página ainda resvalavam pela minha cabeça, tentando me fazer relembrar o ponto da história em que eu havia parado. Lembro-me de uma dose de gim... E de um beijo.
Mas lá estava, destacando-se sorrateiro dentre as últimas folhas do livro, a grande e patética motivação de ser preciso mais uma vez enxugar o meu rosto depois duma noite mal dormida.  Uma orelha de papel já amarelada, que sem pensar duas vezes, num movimento quase que mecânico, quase que frenético, quase que desesperado, a puxei, desdobrei, e encontrei mais uma vez aqueles seus olhos risonhos e miúdos olhando pra mim cheios de falsa inocência.
O porquê daquele martírio voluntario eu não sabia, mas toda noite antes de dormir aquela fotografia velha estava pairando sob o meu olhar. E eu sentia que ela queria ser observada, a sentia vibrando entre meus dedos quando a olhava pra ela de maneira tão intensa, sabia ainda que ela tinha medo de se acabar em chamas por debaixo do fogo dos meus olhos... Por debaixo das labaredas do meu corpo, em meio o vulcanismo enlouquecido que corria dentre as minhas entranhas.
 Ah! E quantas e quantas erupções você não presenciou, não é? Aquele seu gemeozinho de tinta e papel sabia sim como me incitar às coisas! Sabia me trazer nas noites sozinho aquela felicidade fácil, aquele prazer barato; aquela agonia de ter que me contentar com uma maldita foto colada no teto do beliche, na frente de meus olhos aguados... Você estava lá! Velando a minha maledicência, rogando pela minha Solidão! Me fazendo acreditar que aquela enganação podia nos aproximar um pouco mais!
O pior era ver que dentro daquele quadradinho você não reagia, chegava a ser cômico uma cena minha em prantos enquanto você sorria eternamente dentro de seu insolente papel. Uma coisa era certa, e apesar de todas as minhas incertezas, aquele não era você!
Depois de te encarar por mais uma outra e nova eternidade, apertei sua fina existência contra o meu peito e fechei os olhos.  
Dormi com você essa noite, você é quem não dormiu comigo...
E quando percebi já era tarde, eu estava chorando outra vez.

Mas, enfim, entretanto, afinal...


 
Não te perdôo por não sair da minha cabeça.
Não me perdôo por ter deixado você entrar.
Não perdôo a vida por me trazer visitas tão lindas e inoportunas.
Mas, enfim, entretanto, afinal...
O perdão é uma coisa da qual não preciso.
É inútil!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cântico das Ilhas Egéias



És o meu peregrino de uma nação longínqua,
És o meu corcel de uma campina suja,
És o meu pecador que ao céu sobrepuja,
És a minha helíade dos álamos sem flores.


Sois os caracóis inanimados de seus picos,
Sois as frívolas mentiras que quero tanto acreditar,
Sois os sagrados óleos nos quais quero lhes untar,
Sois as pedrarias de meus bustos ricos.


Sejais ainda, espero, a minha alegria,
Sejais pra ti um dia um retrato de prestígios,
Sejais ainda um Deus, um campo de Helígios,
Sejais o pai dos Eliseus, sejais a mãe das galatéias.  

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma nota de adeus a Deus.


Não sei bem se é um vazio, mas sei que és oco, e quieto demais. Sei que nas rotundas deste seu corpo maciço existe uma solução de líquidos que clamam por um pouco mais de testosterona no peito, mais anfetamina na veia, mais epinefrina nos lábios. Sei que parte desses líquidos não jorra a meu favor, sei que não sou o único. Sei também que únicos não existem. Sei também que você aceita de muito bom grado não ser o único de ninguém.
Sei também que você se conhece, sei também que você sabe que eu sei que você se conhece. Sei também que você sabe, não de tudo, não de nada, sabe saber, sabe subir, sabe sobrar, sabe sobreviver, sabe sobrevoar, sabe sobrepujar, sabe subentender, sabe subalternar, saber surrupiar, sabe sonegar, sabe sorrir quando é preciso, sabe saber dos meus e dos teus shows, sabe sentir quando lhe é conveniente, sabe também interromper os sentimentos com louvável perspicácia, sabe salientar as palavras quando lhe convém, sabe fazer as coisas esse meu amigo... Sabe fazer, sabe sim... Sabe ser um sábio.
Sei também que você sabe que eu sei que você sabe, e isso te diverte.
Sei também que nada disso importa, sei que saber sobre sua sabedoria não me faz mais forte nem mais fraco que estas inverdades que te sustentam, fazem de mim apenas o apaixonado que sou. Sei ainda que a culpa não é sua, mas não por muito tempo...
Sendo eu o apaixonado que sou, a paixão não foi embora, quem se foi fui eu! Resolvi praticar um racionalismo e um distanciamento tão machadianos que me assustei quando me vi rascunhando as minhas próprias memórias póstumas... E elas eram bonitas sabe, pois você estava nelas. Olhei nos meus próprios olhos e admirei uma redoma tão límpida, tão úmida, tão pura, que só você não consegue ver. Percebi que não eram minhas vestes que estavam manchadas, não era falta de alvejantes na alma, eram na verdade os teus olhos que estavam embaçados. Embaçados não, ensebados. Ensebados não, exacerbados. Exacerbados não... mortos.
E sei também que eu sempre soube, era bom demais pra ser verdade... não era verdade afinal.     

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Nem a Lua



Se mereces o meu perdão? Sinceramente não sei, mas você o terá, e se lambuzará dele. Vai olhar pra mim e acreditar que nada mudou, que somos os mesmos colibris de uma primavera passada, há tempos congelada, rarefeita num outono de desilusões.
Se mereço vossa sujeição? Sinceramente não sei, mas eu a terei e me lambuzarei dela. Vou olhar pra você e acreditar que nada mudou, que somos as mesmas epimélides de uma pradaria esquecida, ah tempos depredada, rarefeita num desgaste natural e singelo.
Se eu te amo? Incondicionalmente! Mas incondicionalmente não sei, mas eu te terei, e me lambuzarei de ti. Me entregarei e acreditarei que somos os mesmos virgens daquelas tardes sem pai nem mãe, tardes leoninas aquelas, a tempos apreciadas.
Se tu me amas? Inconstantemente! Mas com sua inconstância não sabes, mas você me terá, e se lambuzará de mim. Entregar-se-á e acreditará que somos as mesmas musas daquela Grécia que já não existe mais, com mármores de um branco que não reflete nossa pureza, pureza rarefeita no solstício das napéias.
Se nos merecemos? Sinceramente não sei, mas teremos sempre um ao outro, e nos afogaremos no nosso enroscar caudaloso, sem lambança desta vez. Dosaremo-nos, e cultivaremos um acreditar em versos sem contextos, versos felizes estes, há tempos reprimidos.
Se eu chorei? Meu quarto está alagado, e acho que não foi a chuva.
Chorar-se-ei? Não, minha vida estará radiante, e acho que não será o sol... nem a Lua.  

domingo, 28 de novembro de 2010

Sais, óxidos e ácidos sem base.


É engraçado saber que você existe.
Acordar de manhã bem cedo,
Lembrar que em algum lugar sua vida corre paralela a minha,
Esquecer, ou tentar, dos paralelos perigosos que te rodeiam,
Das entranhas voluptuosas que te perseguem,
Das vontades maníacas que deliram com seu nome.

É engraçado saber que você existe.
Saber da sua indiferença quando tenho o meu medo,
Sonhar que sua mente pudesse encontrar a minha,
E então temer esse encontro que não me rodeia,
Saber que é só a minha mente que te segue,
Saber que por trás do meu racionalismo só existe o seu nome.

É engraçado saber que você existe.
Tentar acreditar que não sou só eu que me cedo,
Lapidar em você uma parte que seja só minha,
Mas descobri que esta verdade não me rodeia,
Descobri que minha mente não tem retorno quando te segue.
Apurei meus ouvidos mas não escutei o meu nome.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O limbo



Hoje eu não acordei, não esperei o meu minucioso processo matinal em que as sete partes de minha alma voltam obedientes para o meu corpo, simplesmente deixei meu corpo me levar, simplesmente me recusei a abandonar o sonho que perdurou sobre mim durante esta noite, simplesmente não queria esquecer aquele fantasioso momento que vivia com você. Pois se em vida é tão difícil te encontrar, deixe-me saciar de ti no âmago do meu espírito. Ou não dá? Ou você não é daquele jeito que imagino? Ou será que este meu sonho é sonhador demais?
Hoje eu não te encontrei, não tolerei o minucioso processo em que minhas pernas buscam desgovernadas pela sua presença, simplesmente não deixei meu corpo me levar, simplesmente me recusei a abandonar aquela realidade que eu não tive com você, simplesmente me recusei a esquecer aquelas fantasias de vivências sem você. Pois se mesmo em sonhos é tão difícil achar um você autêntico, deixe-me inalar então estes seus vapores cheios de pecado. Ou não dá? Ou não existe afinal um autêntico você? Ou essa verdade na qual enxergo você é verdadeira demais pra mim?
Hoje eu não me deitei, não consegui mais uma vez realizar o minucioso processo de devolver minha sedimentada alma ao mundo das coisas indiscriminadas, simplesmente fiquei trancado num devaneio napoleônico, simplesmente fui forçado a crer numa dualidade que nunca existiu pra mim, num alternar dimensional que me enlouqueceu eternamente e que me deu você. Pois se mesmo na loucura não consigo te entender, não me deixe saciar das suas verdades incertas. Ou não dá? Ou isso diverte você? Ou seu orgulho não pode deixar a felicidade, que é você, chegar até mim?
Sentei de frente pro meu Deus e encarei... a mim.
Ah... Como sou lindo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Incógnitas, anjos e amnésia.


 
Não me lembro se era dia ou se era noite. Não me lembro de outros. Não me lembro de outras formas de vida. Não me lembro se existia saída, pois tampouco perdi tempo a procurar. Não me lembro nem ta existência de coisas banais como o tempo em si, da existência em si, dos nossos seres em si mesmos e nem da luz em nós. Mas era perfeito, simplesmente perfeito.
Não me lembro de como éramos, ou se éramos nós mesmos. Se estávamos ali por um propósito ou se o propósito era estar ali simplesmente. Não me lembro se nos falávamos ou se ao menos tínhamos voz. Não me lembro da presença de sons. Não me lembro da presença de cores. Não me lembro da presença de presenças. Lembro-me de você somente, pois nem de mim sei se lembro. Mas era perfeito, simplesmente perfeito.
Era uma sensação que viajava inconstantemente entre um sentimento de calor, aconchego e medo, frio, insegurança. Era como uma ebulição constante e delicada, que trazia para o nosso mundo vapores de um amanhã sem guerras, de uma respiração esperançosa, de um cozinhar lento e doce de um infinito sopro de vida. Sabe, era como pairar o dia inteiro sobre uma linha invisível que dia dividia as realidades inconcussas da felicidade e da alegria. 
Mas foi naquele momento que senti o maior medo de toda minha vida. Com o quebrar dessa barreira encontraram-se, num emaranhar de cheiros e membros, a alegria com a felicidade; e do subproduto dessa reação nasceu você: um anjo perfeitamente imperfeito, que me protegeu em suas fabulosas asas de ardor e me conduziu arfante por um mundo cheio de gemidos e sorrisos.
Agora estamos nus um de frente pro outro, o anjo defronte ao pecador, o pecaminoso anjo encarando o pecador angelical, o pecado celeste julgando a virtude louca e carnal; eu e você, buscando nos olhos do outro uma resposta para as nossas mais profundas e desesperadas perguntas.
Mas eu me cansei, me desculpe, não quero saber estas respostas, quero sempre olhar pra você e encontrar um ponto de interrogação pairando sobre mim, uma dimensão que você guarde que eu ainda possa desbravar; assim como há em mim desbravamentos e expedições que só você foi capaz de enfrentar; quero te olhar e enxergar um universo de possibilidades, quero acreditar que ainda existem novidades, quero encontrar você e contemplar a mais perfeita e linda das incógnitas: a letra “Y”.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Hino das chagas impuras



Os fantasmas do seu passado não lhe dão o direito de assombrar a minha vida. Mas você não é um augúrio, eu sei. És o meu anjo das noites sem lua.

Os filtros que colocastes no antro da sua condição não lhe dão o direito de rotular os públicos Públios da sua vida. Mas você não é tão transgênico, eu sei. És meu uísque dos copos sem gelo.

As bolsas que conquistastes debaixo dos seus olhos não lhe de o direito de embaçar o mundo sobre o qual caminhas. Mas você não é assim tão burro, eu sei. És o meu colírio das tardes não caprichosas.

As desovas indolentes que encontrastes debaixo de seus caracóis não lhes dão o direito de desdenhar as cloacas alheias. Mas você não é assim tão sátiro, eu sei. És a minha Helíade dos álamos sem régias.

As gabrielas desgraças que sapatearam sobre os teus ombros não lhe dão o direito de jogar urtigas sobre os meus. Mas você não é assim tão rude, eu sei. És uma acácia disfarçada de chicória.

Os seus tios, os seus primos e os seus Netos não lhe dão o direito de me trancar num asilo cheio de saídas. Mas você não é assim tão fraternal, eu sei. És o meu irmão num incesto sem injúrias.

As galatéias que te espreitam não lhe dão o direito de não enxergar as verdadeiras medusas. Mas talvez isso te agrade, eu sei. És um ser de mente ardilosa, condicionada a enxergar somente as conveniências.

Enfim, os milhos que encontrastes na bosta não são capazes de germinar outra vez, então não me engula, me saboreie eternamente. Mas você não é assim tão perseverante, eu sei. És o meu sonho que sonha em parar de sonhar comigo.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Tântricas moléstias

Yin e Yang não acordam sem recitar o tantra de seus sonhos.
Usura e Isabel não reinam sobre cabeças despenteadas
Reis e rainhas não fedem nem cheiram.
Incidem sobre as nossas taças, e dormem, feito fiapos de noite.

Melando as dores de um parto sem cria,
Aturando as crias de um parto sem dores,
Tratando em tratados de alpiste e alegria,
Hermético e frágil, caiu e doeu.
E cheio de dedos, de dólares e dentes,
Unindo o útil ao eficaz e ao atraente,
Senti vossas glândulas vesiculosas clamando meu nome.

Cavalos e cus ornaram e brindaram o nosso amor.
Os lábios, de calcário desprovidos,
Sarapintados pela doce e pura e virgem que escorria;
Tarantularam num bambear ciático e frenético,
Adocicado em uma gota de ilusão.

Anatômica movimentação.
Luxúria que se refaz em virtude.
Virtude carinhosa de tântricas moléstias.
Agora estamos juntos num moldar de perfeições.
Risadas fazem ouvintes num mundo cheio de bigodes.
Erros fazem sorrir um bailar literal.
Sorrisos nos fazem amantes num acaso de fraternidades.

Rebosteio da sujeição

 

Bela carranca dos noviços,
Num antro de arrais, delongas e valquírias,
Num quebranto de nogueiras e tablados
Eu encontrei a porcelana de teu rosto.

Entornando os vermelhos e os azuis
Compreendo os mansos cornos do cerrado,
Que embaçam as janelas, amuados,
Esperando as córneas do Sol entrar.

Eu não quero te encontrar com um aviso,
Quero-te num bailar de mármores, náiades e frívolas.
Quero ouvir o rebosteio da sujeição.
Quero me dopar das narcóticas e possessivas vontades.   

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Vinha-d’alhos



Sou um garotinho de segredos secretos,
Muito bem,
Que Deus vos abençoe,
Obrigado.

Sou um garotinho que se descobre a cada dia,
Não que isso seja algo agradável,
Que Deus abençoe,
Obrigado.

Sou um garotinho de amores sem escândalos...
Por enquanto...
Que Deus te abençoe,
Obrigado.

Sou um garotinho...
Por enquanto...
Que Deus me abençoe,
Obrigado.

Sou um cordeiro que masca visgos ordinários,
Talvez ininteligíveis.
E Deus já se inutiliza...
Não a de quê!   

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um prelúdio, um santo, um cu e coices no inferno.






É só um prelúdio, mas é fato, é terrível, é inevitável e eu sei que a minha hora vai chegar. Não, não se trata de morte, “hahaha” (uma risada). Nem de matar alguém, “hahaha#$%&” (uma risada sufocada, ou similar). Mas tenho certeza que vai ser muito mais úmido que esta simples e rude rotatividade da vida. Não, não é falta de combustível meus amigos, é na verdade combustão em excesso, é oxigênio abundante, é falta de chuvarada e de amigas sem irmãos. “Plim” (deveria de ser a gota de uma lágrima, mas cabe ao mundo decidir que rumo levar as orelhas dos olhos).


São onomatopéias esdrúxulas, são sim... são preludismos opressores, são sim... são cordeiros que ruminam leite e ejaculam clorofila, são sim... são sujeitos que menosprezam seus próprios predicados e não vêm que sem eles nada são...  São João e São Benedito, São Sim... são dizeres que circundam certos prazeres e que estão me corroendo. Eu não tenho andado muito sóbrio, muito são... muito são... são... São. 

As pessoas acham que é fácil, que é simplesmente botar os bofes na rua, que é simplesmente jogar as roupas e no arame e deixar-se nua... Eles me condenam! Mas estão todos loucos pra me ver vestido de suor e porra! Querem mais é ter um alvo para onde apontar seus dedinhos lambuzados de lubrificante e manteiga de cacau... 

Estão querendo um cuzinho para aquecer as falanges é?! Pois vão então atrás das avozinhas de vocês, que a estas horas devem estar a dar coices no inferno!

É um tanto quanto desagradável: 

Ó progenitora,
Perdão!
Estão todos desviados,
E obstinados também.
Mas independente das cores que forem os algodões
Vou agora cuidar dos meus bilros,
Das minhas rendas,
Das minhas flores e do desabrochar dos epitélios!
As brincadeiras de roda não eram tão redondas minha querida,
E os trabalhos escolares eram na verdade cadernos de capa dura e vermelha.
As cuecas que corriam solitárias hoje temem a solidão.
E a culpa é sua...
Toda sua.

Recíproca afeição entre dois entes.




Entrei,
De antemão não foi um encontrar bonito,
Um tanto quanto sem pressa...
É, não foi uma fascinação imediatista.
Mas foi bom sabe,
Eu fiquei satisfeito.

Parei,
Admirei um pequeno grande mar de olhares,
Uma ondulação de cabeças ressonantes...
E o encontrei sorrindo de prontidão.
Mas foi bom sabe,
Eu fiquei satisfeito.

Sentei,
Percebi que o entendimento era valorizado em outras primaveras,
Mas, desta vez, nem tanto.
Foi bom louvar este céu de anjos caídos.
Foi bom sabe,
Eu fiquei satisfeito.

Voltei,
Voltei pra minha indulgência de todas as alvoradas,
Pro marasmo divertido de todas as sextas-feiras.
Entrei, parei, sentei...
Mas foi bom sabe,
Eu fiquei satisfeito.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Catarse


Eu não vou mentir, não vou dizer que foi uma coisa inesperada, não vou dizer que depois de um emaranhar de suores e olhares finalmente encontramos o momento da consumação, da gnose, da inserção duma vida na outra. Não vou te fazer acreditar num ultra-romantismo barato e tolo, mas sim num romance lindo de verdades e fatos concretos que estão a um passo de se tornarem a minha maior fantasia.

Fantasia... Uma palavra tão simples que em suas inimagináveis variedades de belezas e hostilidades, nos fez cair em um estupor grave e profundo: o que somos afinal? Mas é melhor esclarecer que não se trata de uma crise existencial, nem de mais um bando de tolos querendo banalmente plantar mais uma louca e inútil corrente de pensamentos filosóficos nesse nosso mundinho tão apegado a respostas. Não, não é isso. Trata-se de apenas uma vontade de olhar profundo um nos olhos do outro e de acreditar que realmente nos pertencemos!

Enfim... Eu ansiava loucamente por este momento! Eu queria te encontrar neste meu universo de cana, azeites, vinagres e vaselinas... E gel; nesta conspiração de sensações que me levaram a mais bruta e linda das entregas, nesta troca de calores que nem mesmo a física pode explicar!

Isto se chama VIVER, ó grande mestre dos milagres! Se chama acreditar num mundo novo, a você que é o homem das mil facetas, das besteiras, das belezas, dos complexos, dos lugares e das criatividades! Será que isso não é o suficiente para enfrentar o que vier em nosso caminho? Pois então, são essas as nossas incertezas... ou talvez as suas.

Pela derradeira e trina vez eu repito:

“Acorda!”
“Foi-se o tempo dos deslumbres de criança!”

Não me arrependo de nada... mas quem dera que fosse uma verdade perene. 
Não se esqueça, eu estou aqui pra você, tanto em cima dos lençóis quanto debaixo dos escombros.

sábado, 30 de outubro de 2010

Um sopro da madrugada, uma chuva sem vento...


Como é bom ouvir sua voz, como um sopro da madrugada que me arrepia e me descarna, me acalenta e me sacode,me faz sonhar com um amanhã mais real. Como é difícil acreditar que numa realidade tão irreal e linda, tão complexa e chula e tão imperfeitamente perfeita. E como é bom descrever esta mesma realidade com palavras bobas, com poemas infantis, com frases assumidamente clichês.
Não eu não preciso de pompas, brincos e colarinhos para descrever uma coisa tão simples, simplesmente complexa. Não eu não preciso que ninguém aprove ou aprecie as minhas tolas expressões controvertidas. Deixem-me em paz caminhar sobre este rio de lágrimas alegres, pela calçada das causas impossíveis, pela esquina dos prós e dos contras, por este mundo cheio de suspiros que eu já não me lembrava mais. Deixem-me então remeter às letras do passado.
“Três longos anos... três almas loucas... três lindas bocas que se estalaram juntas num só bitocar”
É isso! Podem dizer que tudo isso não passa de banal auto-afirmação, pois então que seja! Mas eu já tenho as minhas certezas, primeiramente a certeza de que não é algo proposital... Pois afirmar o que? A meu ver o amor não é algo que tenha que ser provado, não é um objeto que se submete submisso as proporções e conclusões do método, nem as atribuições da prática, mas sim as certezas obtidas através de um decorrer simples e corriqueiro. É neste universo das verdades empíricas que se descobrem os verdadeiros amores... Assim como os falsos.
O amor, assim como Deus, assim como a arte, não é feito para ser compreendido, mas sim contemplado e, nos enfins das descobertas, amado.
Que coisa bonita, não? “Amar o amor!”

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Doce trinado.



E eu já estava preparado para suspirar!
Era meu maior talento... Suspirar.
Foi tão bom mais uma vez ouvir o canto da reconciliação.
O hino das palavras bonitas, dos olhos aguados,
A melodia de um doce trinado de cinco notas transversais,
Elas que eu as absorvia e as deixava ressonar dentro do meu corpo.
...E dentro de mim não só as notas,
Os dotes, aliás, talvez ou também.

Você me faz feliz... Ou simplesmente tenta e, afinal, consegue.