quarta-feira, 20 de julho de 2011

Criptobotânica


Dá-me, singela jardineira, a pureza do cravo alvejado que um dia brotou no soalho da minha vida. Preciso, cara amiga, encontrar outros perfumes; cansei destes liquens que nunca são meus, dessas pétalas viçosas que caem sem pudor, dessa flora toda.  Do meu solo infértil, porém, cresce um pomar alaranjado, sarapintado pelo outono gaiato que nunca tem fim. Meu pomar dá fruta boa, suculenta; meu pomar faz sombra para aqueles que travam as batalhas que os deuses impiedosamente nos cobram. E meu pomar não tem época, dá o ano inteiro.
Vem.  Afaga essa terra que me esculpe no chão, fertiliza esse branco solo de calcário branco, rega o flanco que germina e colha a poupa antes que apodreça. Todo dia me pergunto, por que tua mão calejada não me toca mais? Sinto-me uma semente na campina, esperando sucumbir nas chamas que destroem minha casa para poder finalmente brotar como a árvore de casca grossa que você não conseguirá subir.
E hoje, com teus pés descalços, pisas a semente que me gesta, lavas a terra que me esconde, barras o sol que tanto anseio. A aridez que me acomete se reforça com teus olhos duros e, sem mais, mata-me assim como a tua vontade. Soterrado, então, me calo; desperdiçando meu labor com lágrima, me conformando com o circular da vida.  Ontem eu era flor, hoje eu sou adubo.  

terça-feira, 19 de julho de 2011

A citarística do filho de Jó


Eu amo.
Até mesmo as gralhas que furtam lavouras que não plantei
Até mesmo os lobos que comem os homens que nunca amei
Até mesmo as flores dos pálidos frutos que não reguei
Eu amo.

Eu temo.
Até mesmo as falhas que nem foram lavadas do coração
Até mesmo o lixo que cobre a fossa que não cavei
Até mesmo estes  flocos da neve gelada que nunca caiu
Eu temo.

Eu quero.
Até mesmo as falhas dos furtos que não falhei
Até mesmo os lobos da lua que não minguou
Até mesmo os pálidos flocos que eu nunca vi
Eu quero.

Eu sinto.
Até mesmo os frutos furtados que me fartei
Até mesmo os homens na fossa que enterrei
Até mesmo a palidez que feito seiva escorreu
Eu sinto.

Eu sei.
Até mesmo o cheiro das flores que nunca cheirei
Até mesmo o gosto dos homens que nunca comi
Até mesmo a brancura do branco que nunca vesti
Eu sei.

Eu sou.
Até mesmo aquele que nunca nasceu
Até mesmo o filho daquela que nunca pariu
Até mesmo o reflexo do homem que nunca se viu
Eu sou.

Eu tenho.
Até mesmo a herança do velho que nunca morreu
Até mesmo a senha do cofre que nunca se abriu
Até mesmo as jóias da rainha que não coroei
Eu tenho.

Eu posso.
Até mesmo habitar o planeta que nunca orbitei
Até mesmo amar a donzela que nunca salvei
Até mesmo alcançar o infinito que sempre alcancei
Eu posso.

Eu amo.
Até mesmo a donzela insossa que nunca olhei
Até mesmo a brancura do preto que sempre vesti
Até mesmo aquele abraço amigo que não procuro em ti.
Eu amo.



domingo, 17 de julho de 2011

O pé de feijão.



Desta vez eu vou dormir sozinho. Sim, por opção.  Vou tomar meu banho de uma hora e dormir o um minuto de sonhos que me resta. Não, pois eu não tenho escolha.
Quando a minha cama vazia me chamou eu me deitei com o mesmo entusiasmo de quando os meus lençóis eram proliferáveis como um mar salgado, porém, o algodão sovado que me envolveu esta noite não tinha o mesmo calor, nem o mesmo cheiro.  Na escuridão do meu teto branco como os corvos, leitoso como lágrima, uma fresta projetava meus amantes que me observam me acolhendo em suas risadas de prostituta. E eram felizes elas.
Da minha boca não saiu palavra. Dos meus poros nem suor saiu. E as lágrimas que escapavam eram de sono só, e não mais. Passei a noite jogando pôquer com meu travesseiro e depois me recostei nas plumas de um ganso que eu sabia muito bem onde estava chocando seus ovos de ouro. Preferi voltar para o pôquer e esquecer o gigante barbudo que morava num castelo nas nuvens. Ele queria me comer.
Ademais, as vagens que plantei não me levaram ao céu, tampouco saciaram minha fome. Daqui, de baixo dos cobertores, fico escutando o trinado da harpa encantada que passou a noite tocando Janes Joplin. Que harpa inconveniente. Foi aí que percebi que os espectros dos meus amantes haviam parado de rir a agora choravam copiosamente; e eu quase que percebi uma gota de dignidade brotando daqueles olhos. Me decepcionei, eram lágrima de crocodilo, patéticas lágrimas de cocô-de-grilo.
Fechei os olhos na esperança de enxergar uma escuridão mais convidativa, mas o que vi foi um caralho alado que passou voando por cima da minha cama recitando o salmo 23. Reabri-os. Vai saber, não é?
Os comprimidos que engoli foram incompetentes e não me levaram ao sono eterno que almejei. Eles caíram ruidosamente no soalho do meu estômago e ficaram fazendo serenata para minha vesícula. Que comprimidos imprestáveis, mas a vesícula bem que estava seduzida. Vesícula ordinária! Confesso que pensei em desenterrar as vagens e come-las, na esperança de matá-los afogados em nódia. Foi um pensamento estúpido.
Voltei a encarar meus amantes como se nada houvesse acontecido, mas eles começaram a bolinar uns aos outros e então eu revirei os olhos e desisti de vez! Mas o meu travesseiro continuava ali, sem o seu cheiro, sem o teu calor. Suspirei profundo e me virei de lado resistindo a uma ereção.
Ao longe escutei minha vaquinha desnutrida mugindo num pasto que já não era meu. E, ouvindo aquele chamado tristonho e grave, definitivamente fechei os olhos e adormeci planejando as vagens que refogaria no almoço de amanhã. 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Dolorosa Homilia


Eu estou triste. Isto... O primeiro passo é a aceitação. E basta.
Agora, arranhando esta pauta estúpida, tento me convencer e calcular qual a doçura do fruto acinzentado que hoje colhi, depois de um outono tão feliz, inescrupulosamente feliz. Replico: Sou um garotinho esperto, sei que a melancolia que me lava não há de ultrapassar mais que o tempo de um ciclo solar. De janelas abertas, porém, observei que o sol não mais mergulhará por sob a linha do horizonte. Lá no alto, fustigas o labor contra a alegria fajuta que queimou minh’alma outrora. Pois brilhas, feito fiapos de fel.
A saudade que me acomete te coloca num pedestal de mármore que não sou capaz de alcançar. E provando do sal que tempera as minhas lágrimas, observo teus dedos curtos tocando a parede do céu. Vedes! Estou aqui em baixo suplicando uma gota de sua imaculada atenção! ... Mas você retirou as sandálias, prostrou-se escravizado diante dos seus instintos, e me deixou a adorar uma cruz sem sacrifício, um altar vazio; o templo que se refaz cada dia em meu peito ficou deserto esta manhã.
Mas um dia o céu será meu e, com seus dedos curtos, você me tocará outra vez. Mas dentro de mim haverá um buraco profundo e nem mesmo que todos os mortos de todos os tempos, mesmo que ressuscitassem, não o preencheriam. Pois a superfície do céu meu coração não me destina, é nos teus braços que quero me deitar. Se hei de me humilhar, humilhar-me-ei! Se hei de me machucar, machucar-me-ei! Mas eu terei forças para cruzar este jardim de urtigas e, tenho certeza, do outro lado te encontrarei e você florescerá dentro de mim outra vez!
Escutai! O hino que te resguarda toda noite. O martírio dissonante que escapa do meu peito e embala os sonos que você nunca dormiu. Sinta, Urtiga Bela! Que, a cada dia que passa, o meu clamor se desprende mais alto e mais solitário. Será que este amor não te preenche quando se deita pra dormir? Saiba que o fulgor no qual te intercedo me sacia um pouco do que eu não posso ter, e por isso agradeço.
Peço. Banha-me outra vez, e fertilizai o fruto acinzentado que das tuas mãos colhi. Quero o teu fruto viçoso outra vez, pois preciso saciar esta minha sede de quem nunca se afoga. 

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Martini Vermelho


O martini desta noite foi servido num copo plastificado, frágil e ensebado. E era caro, o martini. Caro também eram os meus amigos. Caros amigos! Parceiros de uma dança que não saía da cadeira.
Caro martini, caros amigos, boa música e poesia. Burburinho! Um cheiro que resvalava inconcusso entre flores e falos; risadas abafadas pelo chorinho de notas simplórias, embargadas por seus devidos copos de plástico. Vinha: tabaco cheiroso, gente bonita... Mas minha cabeça estava longe, muito longe.
Pregado na cadeira, contemplei a felicidade que me rodeava e a odiei fervorosamente. Porém, meu caráter é nobre e meu sangue é azul. Por isso não sorrirei pra desgraça dos outros: esta noite chorarei pelas bênçãos que não são minhas.
Confesso! Eu também bebi, eu também embarguei minha boa risada, eu também prostituí meu verso e minha prosa nesta noite tão farta em carisma e tão pobre em caridade. Não vou dizer que bebi por você, mas o tombo na sarjeta eu lhe dedico. Se me vendi não foi por você, mas em ti depositarei uma generosa comissão. Aguarde, meu caro especulador de corações! Esta noite hipotecarei o corpo que só você não quis comprar!
Doravante, perguntas se eu me arrependo? Sim, eu me arrependo. Queria sim que o tempo voltasse, ou que o mundo parasse. Queria sim que fosse tudo diferente. Pois sei que o amor que sinto hoje é bem maior que o orgulho que eu tenho por dever sentir um dia. E é muito mais caro, ainda mais precioso que aquele cretino martini naquele copo descartável... Descartável como nunca você vai ser. 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Só você sabia brincar.



Essa noite me masturbei pensando em você. Não é um dizer muito romântico, nem elegante, admito. Mas foi bom, eu acho. Afinal, eis aqui as minhas mãos. Elas. Sim. Ainda as tenho. Ao menos isso, não é mesmo? Sim. Minhas mãos.
Não há necessidade de detalhes. Você não precisa deles e nem os aprecia. Tem quem queira, admito. Mas esse conformismo não me basta. Afinal, acho que sou bonito, por assim dizer. Mamãe também acha.
Agora eu vou contar de quando me levantei.
Primeiro eu me levantei. E foi só.
Digo, meu corpo se levantou. Sim. Meu corpo.
Não, eu não vou ter um acesso de inspiração romancista e dizer que minha alma ficou lá deitada. Nem meu coração. Nem meus sonhos. Nem minha vida. Nada disso. Isso não.
Pois eu não tenho alma – e agora sim começa o dramelô – Nada de alma, não senhor. Nada de coração. Nada de sonhos, pesadelos também não. Um pouco de vida sim, convenhamos. Mas nada de muito especial. Nada de bonito, grandioso. Nada de luz, trevas muito menos. Nada de nada. Nada do menininho que já fui um dia.
Nada além daquilo que você pôde me dar.
Ademais, eu não estava triste, acredite. Estava até bem humorado: cantei no banheiro, sorri pro espelho. Era engraçado admirar aquela vastidão enegrecida que surgia dos meus olhos, bem lá no meio, lá no fundinho deles. Ainda tinha brilho neles, ah se tinha, tinha sim. Brilho. Cor. Lágrima. Tinha alegria neles. Tinha umas poucas tristezas também. Medos. Culpas. Méritos. Além das remelas de uma noite muito bem dormida.
 Nada como dormir sustentando os suspiros de uma fornicação interna e solitária! Ah sim!
Voltei pro quarto. Chutei dolorosamente o pé da cama, como de costume. Abri a janela. E imitando a Julieta que nunca quis ser, esperei o Romeu que nunca esperaria, me recostando no parapeito. O céu estava azul-céu. O asfalto estava cinza-asfalto. A terra estava vermelho-terra. E as pessoas estavam da cor de gente mesmo. Já eu estava branco como o mármore que nunca forrou o meu chão e o meu sangue estava azul como a nobreza que eu nunca tive.
Era você me assombrando outra vez! Eu ouvia sua voz em meu ouvido como se você estive ali deitado às minhas costas. Senti seu cheiro como se você estivesse serpeando dentro de mim outra vez. Senti o seu toque mais uma vez fingindo que minha pele era seda branca. E sua imagem em minha mente era tão sólida quanto o pênis que afaguei esta noite. O meu pênis, é claro.
Você em minhas lembranças! Você na minha mente de criança que insistentemente acredita no grande amor que arrebata os corações! Você, que nesta manhã tão linda me carregou pra cama, me cobriu com carinho, me beijou com sinceridade... Não importa, mesmo como miragem era você ali. A miragem mais linda. O devaneio mais perfeito. O fantasma mais brilhante.
Ali, naquela cama tão macia, naquele sonho tão singelo, você me abandonou outra vez. Lá eu fiquei como você queria. A porcelana fria e estática da boneca que só você sabia brincar. Quietinho, fiquei. Bonitinho, deitadinho. Esperando o seu regresso da guerra dos homens adultos. Sempre esperando, pacientemente encarando o meu esperma no colchão.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Antífona do Amanhecer


O sol que afugenta minha madrugada não se repetiu esta manhã. Por de trás dos montes eu o via me espiando cheio de temores. Teu fogo era pálido e o teu calor não era quente. Entre as montanhas e nós havia um véu de arrependimento; Uma névoa seca que impregnou minha roupa e me fez ansiar uma aurora que nunca veio; Uma barreira imaginaria se ergueu tão concreta que me fez pensar que a beira do mundo fosse ali.
Mas a beira era eu.
Ainda sem brilho, o céu se encheu de nuvens e o dia se iluminou de uma luz que não vinha das estrelas. Naquele instante eu via nove planetas que plainavam ao meu redor, uma cortina de constelações que me vestia, um cinturão de astros dourados que envolviam meus dedos. Fiz-me Deusa. Fiz-me força.
Porém, o grão de mostarda que brotava em meu peito não fez mover as montanhas. Pedra sobre pedra, a solidão era iminente. Mesmo que ao meu redor uma multidão clamasse meu nome eu insistia em ouvir o som do silêncio. O meu toque quebrantava e minha palavra era lei, ainda assim, somente o seu beijo moveria os meus lábios; somente os teus sonhos me fariam realidade; só a tua voz abriria meus ouvidos.
Mas o sol nunca veio. Cego, surdo e mudo, continuo onde estou. Cuidando dos homens, movendo os planetas, tecendo dia após dia aquele véu ordinário. Sempre vivo. Sem a coragem e nem a covardia de me matar. Sem a luz que me aqueceu um dia. Sem a voz que já cantou pra mim. Sempre aqui. Esperando. Vivendo. Na esperança de que o mundo amanheça outra vez.  

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O 24º aposento da princesa


O ar que eu respirava era cheio de dólares
E o cheiro que ostentava bulia diplomacia.
O porcelanato era alvo
E o colarinho era negro.
As pompas eram inegáveis
Pois as pombas eram bem vestidas.
O sapato de bico queria me invadir
E a agudeza de seu salto se assemelhava à espinha.
A tiara era dourada
E a pureza era falsa,
Pois o sorriso era fosco
E o café era azedo.
O barbear era áspero
E o discursar tinha júbilo.
O antebraço era flácido
E a simpatia convencia.
O fosco sorriso ofuscava
E o baixo ventre era gordo.
Mas eu beijava
E acolhia o monarca da morte.
E sorria em resposta.
Fosco, admito, mas sorria.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tomodachi


Quero macular os teus pés,
Alvejar tuas mãos
E abrir os teus olhos.
Lapidar os teus sonhos,
gerenciar os teus beijos,
E enxergar o ser humano que não negas.
Labirintar tua esperança
E esverdear teus desejos.
Destravar sua língua
E libertar seu pudor.
Apontar o seu lápis
E cravá-lo em mim.
Desenhar em você
Sem deixar que me apagues.
Despertar o grego de teu seio
Sem diluir o imperador do seu breu.
Reinar sobre tua luz
Sem te fazer de uma apoteose supérflua.
Caminhar ao teu lado
Sem tocar em você,
Sem me impor ao seu posto,
Sem entrar na tua casa.
Regar seu canteiro
Sem comer do seu fruto.
remexer sua terra
Sem tirar os teus fungos.
Rósea e doce ensinar-te,
Doutorar os seus lábios,
E entregá-los ao mundo que nunca foi seu.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Princesa e o Preto


A atmosfera era roxa
E a kinesfera era pobre.
A retórica era ácida
E o hálito fedia.

A princesa era una
E seu sapo era roxo.
O seu leite era ácido
E seu criado era preto.

O criado era preto
E o seu leite era uno.
Pois a retórica era roxa
E seu cabelo era ruim.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A lembrança de um triste.


Nunca foi tão difícil pensar em você. Não sei mais o que enxergar, não sei se te conheço, e não estou dizendo que você se tornou algo ruim. Simplesmente não te conheço. Não sei o que houve, mas as suas feições começaram me fugir à memória. Não é tão simples quanto eu pensava ser. Lembrar de você tornou-se um martírio de todas as noites, a hemoterapia de todas as tardes sem lua. E a cada alvorada que eu assisto, seus olhos me parecem cada vez mais foscos, teu cheiro cada vez mais distante, tua pele cada vez mais cinzenta. Cada lágrima que cai me banha das impurezas que nunca tive, me lava dos demônios que você plantou em mim, e me encharca dos prazeres que só você me apresentou.  

sábado, 26 de março de 2011

Jogatina


A bidimensionalidade em que me encontrava era angustiante, mas você me resguardava e isso me fazia seguro. Vi meus amigos serem sacrificados a cada gole que você tomava. Eles me invejavam, pois eu não era o único que via como você me olhava. Às vezes você me escondia, às vezes você sorria para mim, às vezes você agia como se eu não estivesse ali, às vezes você me apertava com demasiada força, mas aquilo me excitava e eu queria mais. A noite foi adentrando as vidraças de acordo com que a fumaça de teus amigos tomavam conta da situação e a cada segundo eu me sentia mais importante, aconchegado em teus dedos quentes. Todas as marcas de bebida desfilaram sobre nossos olhos, mas tua embriaguez não te impediu de me amar. Ditirambos e cânticos fálicos começaram a brotar com a chegada da madrugada, tua boca espumava, teu pelo arrepiava e teu corpo afundava cada vez mais na cadeira. Um odor doce e ácido começou e se apoderar da sala quando você me apertou com força sobre o teu peito, senti tua respiração como fogo que queima, e teu coração sussurrando nomes que eu não conhecia. Com a chegada do sol eu escorreguei pro meio de suas pernas, e lá me aqueci e me esqueci de tudo, e temi que meus pensamentos pudessem perfurar sua pele. Já se ouvia gemidos às nossas costas quando você me levantou bem alto e me lançou sobre a mesa. Todos me olharam como seu eu fosse ouro, e a cobiça em teus rostos me fez arrepiar de tesão. Por uma última vez você passou a mão em mim. Então vi você se distanciando, me abandonando. E durante aquela manhã tão fria, enquanto eu encarava colcha esverdeada na qual você me largara, ouvi os teus gemidos no lado oposto da parede.

Sudorese




É tão gostoso quando você me visita.
Deita na cama de meus pais,
Faz-me virgem em tua mente.
Dorme sobre as flores que não plantei
E come do meu pão sem fermento.


Teu beijo não me arrebata,
Me semeia e me rega
Num céu bem abaixo dos meus pés.
Teu calor não me faz suar.

Me mantém frio e calculista sobre o teu corpo
E me enxuga por fora e por dentro.
É tão doloroso quando você se levanta,
Volta pra casa dos seus pais,
Faz-se virgem comumente.

Dorme sobre néctares que não são meus
E confeita seus amigos que não podem ser meus.
Teu beijo não os preenche
E eles precisam te sugar um pouco mais.

Falseando gemidos onde tocam tuas mãos,
Sua frieza não os convence
E eles suam com o esforço de te reanimar,
Mas seu interior é intocável...

E teu suor sai de ti em forma de vodka,
Levando consigo um pouco de mim
E uma dose de dignidade.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O Bailado



Precipitei-me e encontrei-os.
Eram bonitos
E olhavam para mim.

Ambientei-me e me encontraram.
Eu era linda
E a savana respirava meu calor.

Sobre teus olhos foscos voei sem sair do chão.
Banhei-me na iminência deles
E bailei numa valsa de cloacas.

A graça de minhas asas só eles podiam ver,
Mas e o cheiro do meu corpo?
Nem todos puderam beber.

Escolhi-os
E nadei para eles,
Molhei-os com meu fluir.

Possuí-a
E desovei sem medo
E me acolhi em teu âmago.

Voei.

Nadei.

Bailei.

Fiz-me tua...
Até a próxima primavera. 

segunda-feira, 21 de março de 2011

Despedir e Manusear


De repente bateu uma vontade de ter dezesseis anos, de bancar o aspirante a adulto, cheio de dedos, pra se impor num nada, e cheio de “não me toques”, mesmo estando louco pra ser tocado; de sustentar uma maturidade da qual o fruto já se esborrachou no chão; uma vontade de internalizar revoltazinhas e dizer, como você, de peito estufado: “Cada dia me decepciono mais com as pessoas!”. Sim, pois sua biluguinha fedendo a fraldas acha que exala o mais nobre dos tabacos.
 Você, tua boca, tua língua, que fala de feijão como se fosse uísque. Você, teu corpo, que dorme no ácaro como se deitasse na seda. Você, teus olhos, que olha pras raparigas da noite e enxerga príncipes. Você, seu todo, um couro curtido que acredita ser a mais suave pele de pêssego. Do esguicho de mijo ao rio de prata, da terra batida ao mármore branco, do algodão cru à alfaiataria, da realidade de pedras aos sonhos de ouro, de você aqui até você acolá. É assim que te vêm, meu amor, e por isso quero hoje ser o teu espelho: ser inversamente proporcional a ti.
E é realmente triste você acreditar que uma cronologia tão vã nos faça maior que os outros. Não sei se fico com raiva, se dou gargalhadas, ou se sinto pena. 
E é isso. Meus esforços foram insuficientes e não conseguiram impedir que eu me despedisse das tuas virtudes. Meus sonhos não dormem mais e não são mais capazes de reconstruir você. Mas meu clamor foi ouvido a léguas de distância, e mãos predispostas vieram de todas as direções, só a sua é que não veio. Mas hoje eu percebo que ela ainda está aberta em minha direção, mas você não tem coragem, ou humildade, pra esticar o braço. Pois então, perdão, vire-a para lá, recolha seus dedos, feche tuas mãos. De verdade, não há revolta, mas você não mais me terá dentro delas. 

sábado, 19 de março de 2011

[espaço reservado ao título]


Ok, não sei se deixo minha boca ou minha bunda falar.
Enfim, acabei ouvindo uma voz tão silenciosa quanto estes orifícios que relato.

Ok, peço perdão se minha intensidade agride os orifícios teus.
Enfim, se me agrediram, foi intenso.

Ok, não fui agredido.
Enfim, minha sujeição era presente e indecente.

Ok, estou sim falando de sexo.
Enfim, ele não fala comigo.

Ok, proclamem de uma vez a puta que sou.
Enfim, ela não é tão displicente quanto as minhas palavras.

Ok, eu não sou puta alguma.
Enfim, sou um puto.

Ok, sei que o gênero não mudou nada.
Enfim, do másculo ao fêmino não me encontro nem no meio nem nos pólos.

Ok, não sou gay.
Enfim, seres humanos mentem.

Ok, seres humanos falam verdades.
Enfim, sou um ser humano, ou não.

Ok, não estou falando de sexo.
Enfim, estou falando de mim.

Ok, vou ali ajudar meu pai na garagem.
Enfim vou deixar vocês pensarem.

Enfim...
Ok.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cagar e Escarrar.



Na minha opinião não se deve começar nenhuma escrita com “Na minha opinião”, ainda assim comecei, e nem vou pedir desculpas, professor. E vai ser na minha opinião, sem imparcialidade alguma, sem pompas nenhuma, que vou me desenrolar desta vez. Nesta noite quero exercer a minha ignorância, e quero cagá-la e escarrá-la na boca que me chupou um dia. Quero ser bruto desta vez, bruto como nem você conseguiu ser. Quero ressuscitar o cavalo sem Tróia que sempre inexistiu dentro de mim. Mas agora ele existe, e o quero inteiro dentro da sua bunda.
E vai ser na atualidade de hoje em dia que quero você pra ontem. Quero te pegar no colo, subir pra cima e descer pra baixo. E num embate mesmo pleonástico e vagabundo quero deixar-te nu e sem roupas, e te jogar na sarjeta da calçada, e te deixar lá imóvel e sem se mexer. Quero te olhar com os olhos e te cuspir com a boca. Te chutar com os pés e te socar com os punhos.  Quero te evangelizar com os falos e te estuprar com os versículos que satanás me providenciou.
Hoje não vou florear, pois você não merece as minhas flores. Hoje não vou florear, pois sua compreensão só percebe os meus espinhos. Hoje eu não vou florear. Hoje eu não vou colorir. Hoje eu não vou maquiar. Hoje eu não vou te enganar. Hoje eu vou te desfolhar, vou descascar você, vou derrubar os teus frutos, vou queimar os teus galhos, vou desenterrar suas raízes, vou te desfazer frondoso e não, acredite, não vou beber da tua seiva. Ela me enoja.
Noutras primaveras eu me banharia dela, e tiraria de dentro de mim um coro de orodemníadas que saciaria todos os teus desejos. Mas neste outono não, a única coisa que posso te dar é uma matilha de lobos selvagens que vão te comer todinho... Talvez você goste!
Doravante, acredito que não sou mais teu.  Doravante, não acredito que não és mais meu. Doravante, as brincadeiras de roda não nos pertencem mais. Doravante, eu ainda quero brincar. Doravante, não estou te chamando pra brincadeira. Doravante, corre cotia, de noite e de dia, e vá se foder na casa da sua tia.  

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Atestado de morte, Bula da vida.


Minha cabeça dói.
Meu corpo se deita.
Meus orifícios ameaçam esgurmitar todo meu suco cerebral!
Minhas vísceras cantarolam um mantra demoníaco!
Enquanto meus olhos reviram até enxergar o interior de meu crânio.
Dentro dele só existe um vulto resplandecente 
e impetuoso que sorri pra minha desgraça!
...Droga! Linda, forte, doce e viciante droga!
Nem mesmo na doença abandonas minha enferma cabeça?
És o vírus do qual não quero me curar,
E se existir uma cura afinal, que sejais você o médico.
És a praga da qual vale apena adoecer!
És a morte de onde o suicídio brota com prazer!
És a vacina da qual a agulha me excita!
És o termômetro que mede calores inimagináveis!
És o álcool e o algodão incapazes de esterilizar minha alma!
És uma fava amargosa, mas que cura e me faz bem.
És uma capsula poética, efervescente quando lhe é direito!
És o raio que nunca chamarei de “x”, já que você nem me enxerga!
...Droga! Linda, forte, doce e viciante droga!
Você julga ser a cura dos meus pesadelos,
Mas não vê que é na verdade a praga de meus sonhos.
Você usa de métodos nada convencionais
E quer sempre me curar pelo lado de dentro.
Você me quer dopado e estendido nos teus braços fortes,
Mas libera em mim uma adrenalina que me mantém eternamente aceso.
Você é um profissional que trata de modo prático e com agilidade,
Apesar dos efeitos de seus remédios acontecerem tardios e arrependidos.
Você me examinou de todos os ângulos possíveis,
Mas as amostras do meu sofrido sangue nunca lhes são suficiente.
...Droga! Linda, forte, doce e viciante droga!
Você que não se veste de branco;
Você que cura virtudes e chupa feridas;
Você que se automedica contra uma doença que só você vê em mim;
Você que até sabe examinar, mas febrilmente delira.
Você que sustenta um bisturi envenenado na ponta da língua;
Você que me anestesiou trazendo uma dor que nunca senti!
Mas você me faz vivo,
E eu te amo Doutor.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Preludismo primogênito

Ó progenitora,
Perdão!
Estão todos desviados,
E obstinados também.
Mas independente das cores que forem os algodões
Vou agora cuidar dos meus bilros,
Das minhas rendas,
Das minhas flores e do desabrochar dos epitélios!
As brincadeiras de roda não eram tão redondas minha querida,
E os trabalhos escolares eram na verdade cadernos de capa dura e vermelha.
As cuecas que corriam solitárias hoje temem a solidão.
E a culpa é sua...
Toda sua.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os parágrafos do menino



Era uma vez um menino – é nessa parte que lhes dou a liberdade de escolher entre terminar de ler ou então ir vender seus corpos de maneira muito fina e digna em tuas páginas online, nisto que a gente chama de grande conglomerado de redes em escala mundial de milhões de computadores interligados pelo TCP/IP que permite o acesso a informações e todo tipo de transferência de dados (internet, para aqueles que não apelam para a Wikipédia, como eu).
Certo dia um belo dum progresso aconteceu na vida deste menino: as pessoas se sentiram confiantes em encarar o segundo parágrafo de seu texto. Ele ficou feliz, sabe. Então resolveu inventar uma historinha, pois aquela que ele pretendia contar não era muito cativante e ele temia não conseguir a atenção para um terceiro que viria.
A historinha começa assim: “Era uma vez um menino”. Daí pra frente ele começa jogar na cara de vocês o quanto são burros de continuar apreciando uma pessoa que acaba de mandar vocês irem dar a bunda. Ainda têm essa libertina, é claro – é neste ponto que você dá um sorrisinho amarelado e pensa o quanto esse menininho é genial. Não, ele não é.
O quarto parágrafo começa tentando fazer você acreditarem que ele não passa de um blogueiro estúpido metido a ser inteligente, rebelde e prepotente. Este objetivo o menino não alcança, eu sei; e ele ainda é genial, naturalmente.
No quinto parágrafo esse menininho começa a perceber que já está pra ficar meio maçante esse lance de divagar sobre parágrafos, mas daí ele se lembra que lhes deu a chance de se esquivar ainda lá em cima e pensa ligeiramente em lhes mandar vender o corpo mais uma vez, mas acha melhor não. Daí pra frente ele tenta realmente frustrar a sua beleza provando então que você está de fato lendo algo totalmente sem conteúdo, você nem se importa.
Pra manter uma estética e não ter um parágrafo muito grande ele começa um outro, o sexto, acredito. Que bonito, ele acha que vai conquistar você usando dessa displicência fajuta. Enfim, ele consegue.
Então pra não perder o costume ele pensa em criticar naturalmente as novas tribos urbanas, as redes sociais, o rock adolescente nacional, mas ele percebe que com isso vocês realmente parariam de ler e não é isso que ele quer, apesar de tentar induzir o leitor a isso. E de maneira esplendorosa ele termina a sexta pauta se contradizendo e se denunciando.
Ele acha que seria interessante finalizar num número tão auspicioso como o “7”, o numero do poder, o número do mistério, o numero de vidas de Garfield, o número de sorte da maioria das pessoas que não tem criatividade, o número de horcruxes  obtidas por Lorde Voldemort em toda sua vida depois de abandonar Hogwarts! Daí ele faz uma coisinha idiota para terminar o texto e deixar você com cara de paisagem, mirando seu LCD, com a mão descansada sobre o mouse. Antes disso ele pede para que não tirem a mão do mouse, pois seria desonesto. Pede ainda que caso ele esteja errado recoloquem a mão no mouse, isto para não frustrar suas expectativas de futuro escritor. Já firmadas todas as considerações ele então resolve desafiar vocês a parar de ler agora... Vocês não param, ele vence, ele é foda, ele é genial, ele manja... Ele não é eu. Imagina!