terça-feira, 26 de outubro de 2010

Madredeus


Por mais pesada que seja a cruz ou as resmas de um alcorão,
E por mais brancas que sejam as areias da Galiléia,
Por mais rubro que seja sacratíssimo e imaculado coração,
E por mais vibrante que seja o altar e a assembléia...
Por mais ou por menos,
Por brancos ou bélicos,
Por grandes ou pequenos:
Não podem erradicar a dor,
A fome,
A ira,
O pecado...
A seborréia.

Ah sim!
Pois o senhor é meu pastor e nada me faltará!
Morrem-se aos montes diariamente e abundantemente!
E nada me faltará...
E a fome come os povos!
E nada me faltará...
E a pobreza diverte os ricos!
E nada me faltará...
E o catarro adorna os loucos!
E nada me faltará...
E a frieza consome a vida!
E nada me faltará...

Nada me faltará!
Só a vergonha na cara,
Só o tal do pastor,
Só o conceito de amigo...
Pois entre eu e meu umbigo,
Numa apoteose do ego consigo
Encontrar o meu pastor,
E nadar no malte,
E me alegrar na fraude,
E pecar de dia,
E orar de tarde,
E então escarrar na boca da miséria.    

Ora, mas que elegância:
Belo exemplo de espírito,
Esperteza,
Beleza,
Mau-caratismo,
Destreza,
Hipocrisia,
Avareza,
Pobreza,
Safadeza...
E tenho certeza:
Ganância.

O insensato diz no seu coração:
“Deus não existe!”
Corromperam-se, praticando abominações:
Não há quem pratique o bem.
Do céu javé se inclina
Sobre os filhos de Adão,
Para ver se restou alguém sensato,
Alguém que busque a Deus.
Estão todos desviados
E obstinados também:
Não há quem faça o bem,
Não há nem um sequer.

Eis-nos então:
Embriagado em afagos de santos,
Endeusados entre bispos e mártires,
Ludibriados com salmos e cânticos,
Enganados por convenientes enganos
E exaltados a se gabar pelos cantos.
Odiosamente amados,
Descaradamente puros,
Orgulhosamente atados,
Tentados a fugir de apuros.
E assistido por palavras macias e olhos duros,
Por colinas verdejantes eu vou!

Madredeus?
Ah não.
“Madredemo”.

Luas, ninhos, garças...


... Minha vida parecia estar realmente se encaminhando para um final feliz.
Simples, monótono e feliz.
Cheio de perspectivas, pré-concebido e feliz.
Cheio de medos, nós, correntes, flores, dores, luas, ninhos, garças, morças, beijos, doces, frios, tetas, laços, gretas... E feliz?

Mas seria mesmo aquilo a tão sonhada felicidade?
A grande aspiração de vida do homem?
O petróleo divino e respirável que move a todas as raças?
Não! Não era!
A felicidade não é apenas a ausência da tristeza!
Nem o gozar da riqueza!
E era só que havia dentro de mim e eu não sabia,
uma ausência inegável,
uma riqueza desprovida de luz...
um vazio que se expandia sem controle.

Mas um dia ele veio, acompanhado por uma dose de medo e excitação,
todo o preenchimento necessário para reparar os erros e me fazer auto-perdoar por coisas de uma vida inteira!

Estás aqui.
Quero eu ser preenchido.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Coágulo


Ah! O homem!
O forte,
O fraco,
O duro,
O tolo,
A ameba divina,
A grande condensação de um universo chamado insatisfação!
A grande condensação de um universo chamado bosta!

Ah! A bosta!
A forte,
A rala,
A dura,
A tosca,
A ameba divina,
A grande condensação de um universo chamado digestão!
A grande condensação de um universo chamado bosta!

Ah! Por quê?
Será que o homem não vê?
Será que a mulher não enxerga?
Sim, pois o homem vê, a mulher enxerga, enquanto as crianças contemplam!
Não, não vêm.
Não, não enxergam.
Não, não contemplam.
Nenhum deles percebe que a única desgraça do mundo é não nascer!

Ora! Qual é essa de se esvair atrás de uma coisa tão vaga como a felicidade?
Ela não enche a barriga!
Ela não te dá moradia!
Ela nem faz questão de fazer parte de ti!
A Terra não passa de um grande coágulo do sangue dos humilhados
E a felicidade é a ultima lágrima que escapou dos olhos de um Deus e caiu sobre ele.